Nov 28

Crise X: “Ser professor é padecer no paraíso…”

Category: universidade

“Anseio por uma grande explosão barroca e neo-romântica, gostaria que as pessoas tivessem consciência da necessidade de enfrentar profundamente o desafio do mistério que paira paciente sobre o mundo dos homens e que se oferece gratuito à nossa exploração” (A. Alçada Baptista, Peregrinação Interior)

Preciso começar admitindo que sou mesmo um extraterrestre. Quando 90% do planeta caminha numa direção e você faz parte dos 10% que vão para o lado oposto, é porque provavelmente você está errado. E o pior é que, além de errado eu também estou ficando chato. Reclamar demais é um traço típico dos chatos, e eu reconheço que tenho reclamado muito ultimamente. Mas existe também uma função terapêutica no gesto de reclamar. E escrever sobre o que te inquieta, mesmo que ninguém mais partilhe da sua inquietação, é extremamente relaxante. A meia dúzia de pessoas que acompanha este blog sabe que já há algum tempo venho vivendo uma espécie de crise profissional/identitária. Este ano foi particularmente difícil, pois tem se tornado cada vez mais complicado encontrar sentido e rumo no que faço. É evidente que não sou o único em crise. O mundo todo parece hoje atravessar um permanente estado de crise. E no que diz respeito à atividade docente, pelo que tenho visto por aí, não são poucos os que compartilham minhas angústias. Tudo seria, evidentemente, muito mais fácil se eu fosse um daqueles caras (que são legião) que simplesmente estão cagando para tudo. O problema é que não consigo fazer isso. Levo as coisas muito a sério. O tempo todo. De todas as formas. E simplesmente sou incapaz de encarar o trabalho como algo mecânico, como uma obrigação ser cumprida – fazendo sempre o menor esforço possível e evitando a todo custo esquentar a cabeça. Mas é que acho inconcebível fazer algo que não amo. Não dá nem para fingir. Sou o cara que passa finais de semana legendando filmes para mostrar em turmas de graduação, montando sites com conteúdos didáticos, escrevendo apostilas de 50 páginas sobre teoria da imagem. Tenho feito um enorme esforço, também, para não ser apocalíptico. Nunca apreciei os discursos do desastre, os diagnósticos dos futuros sombrios, a retórica do queixume. E além de tudo está totalmente fora de moda ser apocalíptico. A onda agora é ser integrado! Ser moderninho é dizer que estamos vivendo uma “revolução cultural”, onde algumas coisas se vão e outras novas passarão a ocupar o seu lugar. As novas gerações, se diz por aí, já não conseguem operar na lógica de uma cultura letrada, mas estão aprendendo a pensar de forma “não-linear”, “multimediatica”. Isso poderia servir como consolo face à perda de tantas referências amadas (a literatura ou a arte, por exemplo) ou então, como remédio contra qualquer espécie de saudosismo. Mas essa tese já não me satisfaz. Acontece que no passado eu acreditava que o maior problema era o emburrecimento progressivo do mundo. Hoje tenho impressão, porém, de que a coisa é muito mais grave e complexa. Sem dúvida que esse emburrecimento é uma realidade, pelo menos do ponto de vista da tradição humanística. De fato, não se trata apenas de gerações que se sucedem numa disputa pelo troféu da estupidez. Trata-se, antes, de certo desprezo irracional pelo conhecimento. Toda espécie de saber passa a ser vista com desconfiança e confrontada numa atitude de empáfia. Não é preciso ir muito longe: os modelos de sucesso que a mídia nos oferece continuamente – e que são focos do desejo da juventude deslumbrada – nunca precisaram demonstrar qualquer verniz de cultura ou inteligência para prevalecerem na arena social. E como ganhar tubos de dinheiro e aparecer na tevê são os ideais mais elevados desta sociedade, quem poderia culpar as pessoas por idolatrar tais figuras? Como bem mostrou o cinema “adolescente” norte-americano dos anos 80, ser “nerd” é o mais indesejável dos destinos: você não come ninguém e ainda está sempre apanhando dos atletas. Mas, de fato, não se trata apenas disso. Meu diagnóstico hoje é outro. Tenho a impressão de que o maior problema que enfrentamos é menos a elevação estratosférica da ignorância do que uma atitude de suprema indiferença frente ao mundo. A ignorância é facilmente tratável; a apatia exige tratamento longo, difícil e freqüentemente marcado pelo insucesso. Tenho pensado muito sobre isso, especialmente nesta última semana, quando assisti duas vezes ao documentário de Leonard Feinstein sobre o Museu da Tecnologia Jurássica, em Los Angeles. O tema desse filme é precisamente a capacidade de espantar-se com as coisas, a maravilhosa inclinação humana para a curiosidade. Uma capacidade que parece estar cada vez mais ausente da sensibilidade contemporânea. E essa apatia de hoje é tão mais assustadora por ser total e irrestrita. Não parece existir um objeto sequer capaz de despertar o sentido de maravilhamento ou curiosidade. Ah, não curtem ler literatura? Mas então devem gostar de música! Não? Bom, pelo menos algum entusiasmo cinematográfico… Também não? Quem sabe a política ou a economia? Não, não, não… nada. Vazio. Apatia significa falta de paixão (a-pathos). Em outras palavras, talvez os professores desesperançados pudessem resumir o grande mal da cultura contemporânea na falta de amor. Sim, falta amor pelo mundo, falta amor pela vida, falta amor por qualquer coisa que transcenda minimamente o cotidiano e as preocupações mais rasteiras da existência. Nada contra as preocupações rasteiras. Elas devem ser respeitadas. Mas se a vida for apenas isso, não seria melhor enfiar uma bala na cabeça? A visão do senso comum sobre o intelectual o pinta como sujeito sempre com a cabeça nas nuvens, vivendo uma existência de fantasia desvinculada da realidade imediata e concreta que o cerca. Nada poderia ser mais distante da verdade. A realidade mais “imediata” é a mais falsa, a percepção de mundo menos mediada é a mais equivocada. Acordar todos os dias para ir ao trabalho, acompanhar a bolsa de valores religiosamente, passear no shopping em busca do último modelo do tênis da Nike é muito mais absurdo e irreal do que sentar-se num banco de praça e meditar sobre o Imperativo Categórico de Kant. O mundo da apatia é o mais “imediato” de todos, pois nenhuma curiosidade, paixão ou emoção se interpõe entre o apático e a tal da “realidade”. E é também o mundo mais cinza de todos, o mais pobre, o mais esvaziado de sentido. Quem nunca leu Grande Sertão: Veredas tem um pedaço de alma lhe faltando. Quem nunca conheceu os dilemas de Fausto foi roubado de uma das mais importantes experiências da existência. A falta de amor que nos cerca é uma espécie de pequenez da alma. Hoje já não existe espaço para almas grandiosas. “Não coube em mim minha certeza, a regra de ser rei almou meu ser. Minha loucura, outros que a tomem, com tudo o que nela ia. Sem a loucura, que é o homem? Cadáver adiado, besta que procria….” (se não são exatamente esses os versos, é porque os estou recriando; cito de memória – outra arte quase morta nos dias de hoje). O corpo em que não ressoa nenhum acorde espiritual ao ouvir esses versos de Fernando Pessoa está inteiramente morto. É uma casca vazia. Com isso eu não digo que todos os homens devessem ser sensíveis à poesia. Ou mesmo à arte, ou à filosofia, ou a que diabos seja… Digo apenas que as almas se encolheram. Passaram a viver em aposentos sufocantes, sem espaço e sem ousadia para experimentar o que quer que seja realmente novo. É certo que a universidade de hoje tem muito pouco a ver com os ideais que a inspiraram na origem. De espaço para a formação das almas e cultivo do universalismo, elas passaram a ser escolas técnicas de formação profissional. Ou seja, também se encolheram. Ocupam um espaço mínimo e cada vez menos importante na sociedade hiper-tecnológica. Eu costumava imaginar a universidade como um lugar mágico, que iria me curar de uma ignorância da qual eu me envergonhava profundamente. Sim, eu não tinha particularmente nenhum interesse especial pela leitura ou pendor intelectual. Mas sempre fui, admito, bem esquisitinho. Ao contrario das outras crianças, sentia-me medíocre e apequenado por saber tão pouco. Gostava de ouvir coisas como O Aprendiz de Feiticeiro, de Paul Dukas, e logo percebi que havia algo de errado nisso quando meus colegas da escola não pareciam compartilhar do meu entusiasmo sinfônico. Na universidade, não encontrei exatamente o que esperava, mas conheci gente que me alargou os horizontes. Mais tarde, fora do Brasil, aprendi a respeitar o conhecimento. Quando entrava na sala de aula para ouvir meu orientador, pensava no privilégio que era estar ali e poder desfrutar de todo aquele saber destilado ao longo de muitos anos e muitos livros. Lá era inconcebível a porta de uma sala de aula se abrir 10 minutos apos o início das atividades. Lá seria uma falta de respeito sem medida sair antes do término das discussões. Aliás, deixa eu aproveitar para dar um aviso aos navegantes. Como acontece no final de todo semestre, minha paciência já alcançou o limite de suas extremamente distendidas fronteiras. Por essa razão, nem pense em comparecer a uma das últimas aulas do semestre se “tiver” de sair mais cedo. Isso se aplica principalmente à disciplina Comunicação e Imagem. A não ser, naturalmente, que seja aceitável para ti perderes 2 pontos na média final por cada ausência prematura. Preferível nem aparecer, já que não estou enchendo teu saco com a cobrança da presença. Assim, não te pentelho com tecnicalidades nem você me desrespeita com a atitude incivilizada de sair no meio da aula. Considero isso um acordo de cavalheiros.

De resto, não tenho a ilusão de poder transformar ninguém, nem de conseguir alargar um pouco as almas tão estreitinhas que andam por aí. Sim, fui professor homenageado várias vezes, escutei muitos e muitos elogios às minhas aulas e ganhei prêmios no ensino e na pesquisa. Entretanto, não tenho nenhuma fantasia de grandeza em relação ao papel do professor na universidade “pós-moderna”. Acredito em fazer diferença, mas de uma forma extremamente microscópica, localizada e modesta. Porém, o que eu preciso mesmo é ser coerente com o que sou. Ser professor, para mim, não é simplesmente um “trabalho”, é uma vocação. Como extraterrestre que sou, não me resta alternativa senão lutar contra a apatia. Se me entregasse também a ela, movido pelo desânimo que tão freqüentemente se abate sobre tantos de nós, estaria me condenando à morte. Pois viver num mundo sem curiosidade, sem espanto e sem novidade equivale a uma morte em vida. “Quem nada conhece, nada ama”. Esta frase, atribuída àquela estranha figura mística e taumatúrgica (e, quem sabe, “extraterrestre”) que foi Paracelso, resume tudo o que eu quis dizer aqui com tantas palavras. Continuamos escrevendo, continuamos estudando, continuamos ensinando, no fim das contas, não porque esperamos curar o mundo de seus males – sejam eles quais forem. Continuamos fazendo tudo isso na esperança de um dia conseguir curar essa doença da pequenez que acomete o tempo todo as nossas próprias almas.

6 Comments so far

  1. Thiago November 28th, 2009 2:01 am

    Olá, Professor, o seu texto descreve com precisão a atmosfera contemporânea, sem abrir mão de uma revolta apaixonada e comovente. Sou estudante de cinema da UFF e assisti à aula do senhor na PUC sobre “Les yeux sans visage” de Franju, no curso sobre Cinema Francês. Também sou apaixonado pelo terror e adorei a aula, desde a qual venho seguindo o senhor no twitter(meu twitter http://twitter.com/tprcabrera), sem poder, no entanto, comentar seus tweets, infelizmente. Por isso, ao tomar conhecimento deste blog, não quis perder a oportunidade de me comunicar com o senhor e de incentivá-lo a continuar com suas comunicações virtuais, tão valiosas a meus olhos. Saudações, Thiago.

  2. renata lemos November 28th, 2009 6:44 am

    concordo com cada palavra e sinto exatamente a mesma coisa. saudações da família extraterrestre (somos muitos)

    : )

  3. Diana Prallon November 28th, 2009 12:06 pm

    1 - agora sim eu estou absolutamente deprimida.
    2 - não faço idéia de como as pessoas fazem as coisas “porque tem que fazer”. Como pode ser tão indiferente?
    3 - Eu tenho medo da apatia.

  4. Rodrigo November 28th, 2009 8:55 pm

    Olá Erick. Sou um jovem professor de uma pequena universidade pública da Bahia,a UESC, no curso de comunicação social e acompanho bastante seu blog via citações no twitter. Me identifico muito com sua inquietações, esta da atividade acadêmica especificamente. Quando planejamos bem as aulas, sugerimos leituras, filmes e etc somos atacados por levar as coisas à sério, enquanto aqueles que ficam na “zona de conforto” são ovacionados pelos alunos que , em sua maioria, reproduzem uma mentalidade escolar da NOTA (média). Saudações da Bahia

  5. Renata December 1st, 2009 12:11 am

    Gostei muito desse texto em particular, saiba que sou sua fã e compartilho de suas idéias. Beijos.

  6. Veronica Viana December 4th, 2009 10:10 pm

    Professor, até me senti um pouco culpada pelo seu desânimo! Mas se ajuda… Você é um dos melhores professores que já tive, o único que fez com que eu me interessasse de fato sobre filosofia ( ainda vou refazer como ouvinte) e entender a importância das disciplinas teóricas na minha formação acadêmica. Sei que o texto não é sobre o meu umbigo (seria muita presunção minha), mas creio que enquanto aluna, acabo fazendo parte dessa “crise profissional existêncial” ! Resumindo: Não fique apático, seus alunos o admiram justamente pelas aulas claramente preparadas com muita dedicação, pelo vasto conhecimento, criatividade sem esquecer dos códigos, digo desenhos feitos para exemplificar uma situação :D.

    Beijos

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