Archive for March, 2010

Como Escrever Títulos Bombásticos para Obras sobre Cibercultura

March 17th, 2010 | Category: estranho mundo

[da série "como fazer sucesso através da picaretagem elegante"]

- Nenhum bom livro sobre as novas mídias é completo sem o uso do termo “revolução” e seus derivados.  Acompanhado do indefectível “como”, ele é absolutamente fundamental para o sucesso de um manual da cibercultura.  É algo como a referência aos tempos de outrora para os enredos das escolas de samba.  Hoje, quem não revoluciona se estrumbica!  E afinal, existe revolução para todos os gostos.  Até mesmo para os capitalistas mais ferrenhos, que agora podem serem “revolucionários”, não, evidentemente, da ordem social, mas pelo menos de algum modelo de negócios.  Diga-se a verdade: atualmente, poucos fenômenos culturais são mais interessantes e curiosos que a literatura de “auto-ajuda” empresarial.  Em que outro momento da história da humanidade serial possível pensar um livro como “Jesus, o maior gerente de todos os tempos” ou coisas do tipo “o monge e o empresário”?  Entoar mantras ao mesmo tempo que se aplica uma graninha na bolsa de valores é, isso sim, o crime perfeito, combinando satisfação espiritual e material sem nenhum constrangimento.  Títulos como esse me fazem imaginar o autor como o indivíduo idealmente adequado à aplicação daquele princípio expresso em adesivos de automóveis nos EUA: “Jesus loves you, everybody else thinks you’re an asshole!”. Mas voltando ao revolucionário: se você não conseguir pensar em nada realmente significativo para revolucionar, pode ao menos inventar uma palavra nova e sonora, como, por exemplo, “Wikinomics” (what the f.??).  Aliás, “nomics” é uma terminação do tipo “pau para toda obra”.  A gente nunca se cansa dela.  Por que não um “Twitternomics”?  Ou então um “Orkutnomiks”?

- Não basta bagunçar o coreto.  É preciso mudar “tudo”, tudinho mesmo.  As novas mídias têm que ser vistas como um fenômeno tão extremo que seja capaz de levar as pessoas a atitudes verdadeiramente radicais, como a Britney Spear passar a usar calcinhas ou o Lula começar a emitir frases lógica e gramaticalmente coerentes.  Também é bom que essa revolução seja caracterizada como um “segredo”.  Sim, aí temos outra palavra sempre eficiente, já que todo mundo curte um bom segredo.  “Como ficar rico escrevendo Blogs: os Segredos dos Blogueiros Famosos”.  Não há como negar que tais segredos efetivamente existam.  O sujeito que escreveu o livro anteriormente citado ficou rico.  Talvez vocês se lembrem daquele livro (depois transformado em filme) cujo título era simplesmente “O Segredo” e que estourou por aqui faz poucos anos.  Absolutamente genial!  Econômico, elegante e ao mesmo tempo bombástico!  O segredo de “O Segredo” era convencer todo mundo de que ali existia mesmo um tremendo e importante segredo.

- Analisemos esse outro título: “Get Rich Quick with Social Media Marketing”.  De fato, “Social Media” é outra dessas expressões “catchy” que estão na moda.  O sonho de muitos usuários das novas mídias (inclusive deste que vos escreve) é começar adquirindo capital simbólico, para em seguida conquistar capital de verdade mesmo através da popularidade de seus domínios no mundo virtual.  E eu sei que vou ficar rico algum dia, basta continuar escrevendo textos como este e recheá-los de termos como “viral”, “meme”, “convergência”, “transmídia” e assemelhados.  O que é bacana é que o leitor nem precisa entender essas palavras (aliás, é até melhor que não entenda), basta achar que elas soam bem.  Eu, por exemplo, adoro a sonoridade de “meme”.  Sempre faço, inclusive, uma estranha associação mental de “meme” com o rosto de um bebê bem rechonchudo (não sei por quê).

- E o que dizer desses títulos também econômicos, mas tão cheios de poder sugestivo como “A Cauda Longa”?  Não há como não adorar isso, em meio às múltiplas associações mentais que podem nascer dessa feliz expressão.  Ops, acabo de achar no Google a frase “Como a Cauda Longa está Mudando Tudo”!  Em outro site, encontro o seguinte questionamento: “Será a cauda longa um mito?”.  Não, meus amigos, a cauda longa é muito real, e já a vi, ao vivo, com esses olhos que a terra há de comer. Entretanto, devemos assinalar que essas são exceções.  O caminho mais fácil é direto para um bom título de obra de divulgação é pensar em algo extenso e misterioso ao mesmo tempo.  Muitas palavras com o poder de dizer muito pouco.  Nesse sentido, bons exemplos talvez sejam as obras de Andrew Lih, “The Wikipedia Revolution: How a Bunch of Nobodies Created the World’s Greatest Encyclopedia” (a boa e velha “revolução”!) e Clay Shirky, “Here Comes Everybody: the Power of Organizing without Organizations”.  Se foram “Joões-Ninguém” que inventaram a Wikipedia e se realmente é possível organizar-se sem organizações, então por que você também não pode faturar uma boa grana escrevendo um novo manual sobre a revolução das novas mídias?  Eu ainda acredito em Papai Noel.  E você?

p.s: se você curtiu este texto, dê uma olhada na discussão mais séria (e acadêmica?) do assunto em meu outro blog.

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Ah, as delícias da vida na academia…

March 11th, 2010 | Category: estranho mundo

Esta semana, vivenciei uma experiência bastante desagradável, cuja natureza me levou à decisão de comentá-la neste blog. Um doutorando de uma instituição localizada em outro estado convidou-me para integrar sua banca de examinadores (não, a elegância não me permite revelar o nome dessa instituição). Apesar de a data não ser das mais favoráveis, aceitei com gosto o convite. Já conhecia o doutorando – pessoa de grande seriedade, talento e densidade intelectual –, bem como seu orientador, um dos maiores pesquisadores da comunicação no pais, segundo minha opinião. Na maioria dos programas de pós-graduação, as bancas de mestrado e doutorado são escolhidas pelo candidato e seu orientador, em comum acordo. Contudo, entre as diversas peculiaridades dessa instituição específica está o fato de que ali nem orientando nem orientador tem livre escolha sobre os integrantes da banca. O candidato tem que preparar uma lista de possíveis participantes em ordem de prioridade e apresentá-la ao colegiado do programa, que possui o privilégio divino de vetar nomes ou alterar ordens de preferência. Pois bem, depois de várias negociações em relação à data e composição da banca, recebo um constrangido email do candidato informando-me que o colegiado havia, por razões inexplicáveis, saltado meu nome e homologado como integrantes da banca as opções secundárias de sua lista – pesquisadores da maior competência, sem dúvida, e um deles inclusive grande amigo meu. Entretanto, sem qualquer justificativa para a atitude, o direito de escolha do candidato e do orientador fora menosprezado, criando uma situação desagradável para o futuro doutor e uma indisposição desnecessária com o antigo doutor “desconvidado” em relação à instituição. Neste momento, não vale a pena investigar qual das patologias características do nosso sistema acadêmico tal atitude nos revela. Mais apropriado é simplesmente apontá-lo como um dos muitos sintomas localizados que exprimem, porém, um quadro de problemas mais amplo. Nessas horas é que me pergunto por que, afinal de contas, decidi retornar ao Brasil…

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