Archive for November, 2009

Crise X: “Ser professor é padecer no paraíso…”

November 28th, 2009 | Category: universidade

“Anseio por uma grande explosão barroca e neo-romântica, gostaria que as pessoas tivessem consciência da necessidade de enfrentar profundamente o desafio do mistério que paira paciente sobre o mundo dos homens e que se oferece gratuito à nossa exploração†(A. Alçada Baptista, Peregrinação Interior)

Preciso começar admitindo que sou mesmo um extraterrestre. Quando 90% do planeta caminha numa direção e você faz parte dos 10% que vão para o lado oposto, é porque provavelmente você está errado. E o pior é que, além de errado eu também estou ficando chato. Reclamar demais é um traço típico dos chatos, e eu reconheço que tenho reclamado muito ultimamente. Mas existe também uma função terapêutica no gesto de reclamar. E escrever sobre o que te inquieta, mesmo que ninguém mais partilhe da sua inquietação, é extremamente relaxante. A meia dúzia de pessoas que acompanha este blog sabe que já há algum tempo venho vivendo uma espécie de crise profissional/identitária. Este ano foi particularmente difícil, pois tem se tornado cada vez mais complicado encontrar sentido e rumo no que faço. É evidente que não sou o único em crise. O mundo todo parece hoje atravessar um permanente estado de crise. E no que diz respeito à atividade docente, pelo que tenho visto por aí, não são poucos os que compartilham minhas angústias. Tudo seria, evidentemente, muito mais fácil se eu fosse um daqueles caras (que são legião) que simplesmente estão cagando para tudo. O problema é que não consigo fazer isso. Levo as coisas muito a sério. O tempo todo. De todas as formas. E simplesmente sou incapaz de encarar o trabalho como algo mecânico, como uma obrigação ser cumprida – fazendo sempre o menor esforço possível e evitando a todo custo esquentar a cabeça. Mas é que acho inconcebível fazer algo que não amo. Não dá nem para fingir. Sou o cara que passa finais de semana legendando filmes para mostrar em turmas de graduação, montando sites com conteúdos didáticos, escrevendo apostilas de 50 páginas sobre teoria da imagem. Tenho feito um enorme esforço, também, para não ser apocalíptico. Nunca apreciei os discursos do desastre, os diagnósticos dos futuros sombrios, a retórica do queixume. E além de tudo está totalmente fora de moda ser apocalíptico. A onda agora é ser integrado! Ser moderninho é dizer que estamos vivendo uma “revolução culturalâ€, onde algumas coisas se vão e outras novas passarão a ocupar o seu lugar. As novas gerações, se diz por aí, já não conseguem operar na lógica de uma cultura letrada, mas estão aprendendo a pensar de forma “não-linearâ€, “multimediaticaâ€. Isso poderia servir como consolo face à perda de tantas referências amadas (a literatura ou a arte, por exemplo) ou então, como remédio contra qualquer espécie de saudosismo. Mas essa tese já não me satisfaz. Acontece que no passado eu acreditava que o maior problema era o emburrecimento progressivo do mundo. Hoje tenho impressão, porém, de que a coisa é muito mais grave e complexa. Sem dúvida que esse emburrecimento é uma realidade, pelo menos do ponto de vista da tradição humanística. De fato, não se trata apenas de gerações que se sucedem numa disputa pelo troféu da estupidez. Trata-se, antes, de certo desprezo irracional pelo conhecimento. Toda espécie de saber passa a ser vista com desconfiança e confrontada numa atitude de empáfia. Não é preciso ir muito longe: os modelos de sucesso que a mídia nos oferece continuamente – e que são focos do desejo da juventude deslumbrada – nunca precisaram demonstrar qualquer verniz de cultura ou inteligência para prevalecerem na arena social. E como ganhar tubos de dinheiro e aparecer na tevê são os ideais mais elevados desta sociedade, quem poderia culpar as pessoas por idolatrar tais figuras? Como bem mostrou o cinema “adolescente†norte-americano dos anos 80, ser “nerd†é o mais indesejável dos destinos: você não come ninguém e ainda está sempre apanhando dos atletas. Mas, de fato, não se trata apenas disso. Meu diagnóstico hoje é outro. Tenho a impressão de que o maior problema que enfrentamos é menos a elevação estratosférica da ignorância do que uma atitude de suprema indiferença frente ao mundo. A ignorância é facilmente tratável; a apatia exige tratamento longo, difícil e freqüentemente marcado pelo insucesso. Tenho pensado muito sobre isso, especialmente nesta última semana, quando assisti duas vezes ao documentário de Leonard Feinstein sobre o Museu da Tecnologia Jurássica, em Los Angeles. O tema desse filme é precisamente a capacidade de espantar-se com as coisas, a maravilhosa inclinação humana para a curiosidade. Uma capacidade que parece estar cada vez mais ausente da sensibilidade contemporânea. E essa apatia de hoje é tão mais assustadora por ser total e irrestrita. Não parece existir um objeto sequer capaz de despertar o sentido de maravilhamento ou curiosidade. Ah, não curtem ler literatura? Mas então devem gostar de música! Não? Bom, pelo menos algum entusiasmo cinematográfico… Também não? Quem sabe a política ou a economia? Não, não, não… nada. Vazio. Apatia significa falta de paixão (a-pathos). Em outras palavras, talvez os professores desesperançados pudessem resumir o grande mal da cultura contemporânea na falta de amor. Sim, falta amor pelo mundo, falta amor pela vida, falta amor por qualquer coisa que transcenda minimamente o cotidiano e as preocupações mais rasteiras da existência. Nada contra as preocupações rasteiras. Elas devem ser respeitadas. Mas se a vida for apenas isso, não seria melhor enfiar uma bala na cabeça? A visão do senso comum sobre o intelectual o pinta como sujeito sempre com a cabeça nas nuvens, vivendo uma existência de fantasia desvinculada da realidade imediata e concreta que o cerca. Nada poderia ser mais distante da verdade. A realidade mais “imediata†é a mais falsa, a percepção de mundo menos mediada é a mais equivocada. Acordar todos os dias para ir ao trabalho, acompanhar a bolsa de valores religiosamente, passear no shopping em busca do último modelo do tênis da Nike é muito mais absurdo e irreal do que sentar-se num banco de praça e meditar sobre o Imperativo Categórico de Kant. O mundo da apatia é o mais “imediato†de todos, pois nenhuma curiosidade, paixão ou emoção se interpõe entre o apático e a tal da “realidadeâ€. E é também o mundo mais cinza de todos, o mais pobre, o mais esvaziado de sentido. Quem nunca leu Grande Sertão: Veredas tem um pedaço de alma lhe faltando. Quem nunca conheceu os dilemas de Fausto foi roubado de uma das mais importantes experiências da existência. A falta de amor que nos cerca é uma espécie de pequenez da alma. Hoje já não existe espaço para almas grandiosas. “Não coube em mim minha certeza, a regra de ser rei almou meu ser. Minha loucura, outros que a tomem, com tudo o que nela ia. Sem a loucura, que é o homem? Cadáver adiado, besta que procria….†(se não são exatamente esses os versos, é porque os estou recriando; cito de memória – outra arte quase morta nos dias de hoje). O corpo em que não ressoa nenhum acorde espiritual ao ouvir esses versos de Fernando Pessoa está inteiramente morto. É uma casca vazia. Com isso eu não digo que todos os homens devessem ser sensíveis à poesia. Ou mesmo à arte, ou à filosofia, ou a que diabos seja… Digo apenas que as almas se encolheram. Passaram a viver em aposentos sufocantes, sem espaço e sem ousadia para experimentar o que quer que seja realmente novo. É certo que a universidade de hoje tem muito pouco a ver com os ideais que a inspiraram na origem. De espaço para a formação das almas e cultivo do universalismo, elas passaram a ser escolas técnicas de formação profissional. Ou seja, também se encolheram. Ocupam um espaço mínimo e cada vez menos importante na sociedade hiper-tecnológica. Eu costumava imaginar a universidade como um lugar mágico, que iria me curar de uma ignorância da qual eu me envergonhava profundamente. Sim, eu não tinha particularmente nenhum interesse especial pela leitura ou pendor intelectual. Mas sempre fui, admito, bem esquisitinho. Ao contrario das outras crianças, sentia-me medíocre e apequenado por saber tão pouco. Gostava de ouvir coisas como O Aprendiz de Feiticeiro, de Paul Dukas, e logo percebi que havia algo de errado nisso quando meus colegas da escola não pareciam compartilhar do meu entusiasmo sinfônico. Na universidade, não encontrei exatamente o que esperava, mas conheci gente que me alargou os horizontes. Mais tarde, fora do Brasil, aprendi a respeitar o conhecimento. Quando entrava na sala de aula para ouvir meu orientador, pensava no privilégio que era estar ali e poder desfrutar de todo aquele saber destilado ao longo de muitos anos e muitos livros. Lá era inconcebível a porta de uma sala de aula se abrir 10 minutos apos o início das atividades. Lá seria uma falta de respeito sem medida sair antes do término das discussões. Aliás, deixa eu aproveitar para dar um aviso aos navegantes. Como acontece no final de todo semestre, minha paciência já alcançou o limite de suas extremamente distendidas fronteiras. Por essa razão, nem pense em comparecer a uma das últimas aulas do semestre se “tiver†de sair mais cedo. Isso se aplica principalmente à disciplina Comunicação e Imagem. A não ser, naturalmente, que seja aceitável para ti perderes 2 pontos na média final por cada ausência prematura. Preferível nem aparecer, já que não estou enchendo teu saco com a cobrança da presença. Assim, não te pentelho com tecnicalidades nem você me desrespeita com a atitude incivilizada de sair no meio da aula. Considero isso um acordo de cavalheiros.

De resto, não tenho a ilusão de poder transformar ninguém, nem de conseguir alargar um pouco as almas tão estreitinhas que andam por aí. Sim, fui professor homenageado várias vezes, escutei muitos e muitos elogios às minhas aulas e ganhei prêmios no ensino e na pesquisa. Entretanto, não tenho nenhuma fantasia de grandeza em relação ao papel do professor na universidade “pós-modernaâ€. Acredito em fazer diferença, mas de uma forma extremamente microscópica, localizada e modesta. Porém, o que eu preciso mesmo é ser coerente com o que sou. Ser professor, para mim, não é simplesmente um “trabalhoâ€, é uma vocação. Como extraterrestre que sou, não me resta alternativa senão lutar contra a apatia. Se me entregasse também a ela, movido pelo desânimo que tão freqüentemente se abate sobre tantos de nós, estaria me condenando à morte. Pois viver num mundo sem curiosidade, sem espanto e sem novidade equivale a uma morte em vida. “Quem nada conhece, nada amaâ€. Esta frase, atribuída àquela estranha figura mística e taumatúrgica (e, quem sabe, “extraterrestreâ€) que foi Paracelso, resume tudo o que eu quis dizer aqui com tantas palavras. Continuamos escrevendo, continuamos estudando, continuamos ensinando, no fim das contas, não porque esperamos curar o mundo de seus males – sejam eles quais forem. Continuamos fazendo tudo isso na esperança de um dia conseguir curar essa doença da pequenez que acomete o tempo todo as nossas próprias almas.

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Sobre a Comunicação e o Jornalismo

November 23rd, 2009 | Category: universidade

O recente e acalorado debate sobre as Diretrizes do MEC para os cursos de jornalismo é apenas reflexo de um fenômeno muito mais amplo e de longa sobrevida. Refiro-me ao conflito histórico, por vezes velado, por vezes inteiramente explícito, entre duas concepções ideológicas diversas a respeito da Comunicação em suas dimensões de ensino e pesquisa. Como costuma ocorrer, as posições extremas desse conflito revelam-se freqüentemente improdutivas e falseadoras da verdade dos fatos. Particularmente digna de análise é a posição radical que muitos (digo “muitosâ€, não todos) jornalistas ou pesquisadores do jornalismo costumam adotar na defesa de sua prática profissional ou objeto de pesquisa. Sou graduado em jornalismo e, naturalmente, não tenho nada contra o jornalismo, seja como atividade profissional, seja como tema de investigações científicas. Ao contrario, inclusive, de algumas pessoas com quem já conversei sobre a questão, considero de extrema importância e relevância científica boa parte das pesquisas que aqui têm sido realizadas na área do jornalismo. Também sempre defendi uma posição de pluralismo e abertura no desenho das fronteiras da Comunicação como disciplina e área de conhecimento. Contudo, não cessa de me surpreender a veemência com que certos indivíduos procuram caracterizar o campo do jornalismo como o horizonte de pesquisa mais autêntico e legítimo (senão único) da comunicação. Essa veemência e a forma como ela se expressa parecem indicar uma espécie de síndrome da perseguição. Como se houvesse um complô secreto e difuso contra o jornalismo, torna-se necessário então reagir com máxima força, de modo a criar uma fortaleza inexpugnável capaz de protegê-lo, inclusive, das intempéries do tempo e das transformações sociais. Acho impressionante a facilidade com que a “objetividade†jornalística e o “distanciamento†científico caem por terra diante do poder de certos mitos característicos do mundo do jornalismo. A pureza com que se tem buscado desenhar o horizonte do jornalismo, como prática e objeto de pesquisa, padece de uma ingenuidade que chega a beirar o delírio. Como intelectual universitário, já não tenho nenhuma grande ilusão quanto à minha atividade e ao meu campo de pesquisa. Sei muito bem que não vamos salvar o mundo, e tenho, inclusive, sérias dúvidas sobre a sobrevivência futura do nosso atual modelo de universidade e produção de conhecimento. Contudo, considero essa percepção algo saudável: uma espécie de lucidez necessária não apenas ao trabalho científico, mas à sobrevivência em um mundo de tão rápidas e intensas transformações quanto o nosso. Ainda creio que podemos fazer uma diferença – efetivamente, em um nível microscópico – mas não alimento nenhuma ilusão “missionária†do tipo que por muitos anos grassou (e que me parece ainda muito viva) no âmbito do jornalismo. Em muitos campos do conhecimento, a desaparição de práticas, objetos de pesquisa, teorias ou métodos tem sido encarada com uma atitude que nada tem de reativo – e uso este termo com toda negatividade que lhe devota o vocabulário nietzscheano. O exemplo da Literatura Comparada, nesse sentido, é dos mais esclarecedores. Face ao diagnóstico da decadência da critica literária (ou mesmo da noção clássica de “literaturaâ€), muitos intelectuais acadêmicos saíram em campo para buscar novos objetos, questões ou modos de abordagem. Em vez de se lamentar pela desaparição de seu objeto, inventaram outros horizontes, objetos e perspectivas – alguns, inclusive, se aproximando daquilo que nós, de modo algo artificial, denominamos por aqui de “comunicaçãoâ€. Lembro-me bem de meu professor de hebraico, que costumava dizer: “eu não acredito em D’s, eu sei que Ele existeâ€. Era sua maneira de manifestar a intensidade inquestionável de sua fé. Assim fazendo, naturalmente, confundia crença com saber, fé com ciência. Mas não sejamos apressados em condená-lo. A bem da verdade, nunca existiram fronteiras precisas entre esses domínios. Assim como não existe algo como um “puro†jornalismo, não existe algo como a “pura†ciência, totalmente incontaminada pelo imaginário ou pela crença. Como diria Bruno Latour, “jamais fomos modernosâ€. O que é perigoso na frase é seu teor dogmático. Enquanto a atitude científica prima pela abertura à permanente revisão de seus conceitos e teses, a atitude dogmática almeja paralisar o tempo e essencializar realidades históricas. São precisamente inflexões desse tipo de atitude que se pode identificar tanto no documento das diretrizes do MEC quanto no discurso de alguns dos defensores mais ferrenhos do jornalismo como campo de conhecimento e atividade humana. Vejamos, por exemplo, uma passagem do documento que já foi destacada (e criticada) na lista da Compós:

“Com a finalidade de tornar compatíveis o requisito da titulação do corpo docente e a necessidade de aderência às disciplinas ministradas, a Comissão de Especialistas recomenda a criação de um Programa Nacional de Aperfeiçoamento Docente destinado às novas gerações de professores de Jornalismo. Muitos foram titulados pelos cursos de pós-graduação da área teórica de Comunicação ou de disciplinas conexas, sem ter exercido plenamente a profissão e não raro sem o domínio cognitivo da sua especificidade. Concomitantemente, deve ser fomentada, nas Escolas de Comunicação, a abertura de cursos de mestrado e doutorado com áreas de concentração em Jornalismo, para atender à demanda crescente de novos professores para os cursos de graduação e de projetos de pesquisa científica na áreaâ€

Em essência, o que se propõe aqui é a abertura de uma “reserva de mercado†acadêmico para o jornalismo. Como se já não bastasse o fato de vários programas de pós-graduação possuírem linhas de pesquisa e pesquisadores dedicados a temas de jornalismo, agora é necessário fomentar mestrados e doutorados especificamente dedicados a tal área de concentração. Mas então por que não fomentar a criação de cursos com área de concentração em Cibercultura, de modo a melhor preparar os futuros pesquisadores desse campo? (claro que o exemplo é, na verdade, um contra-exemplo). No fundo dessa proposição, esconde-se também uma contradição lógica. Por “domínio cognitivoâ€, o que se quer destacar efetivamente é a necessidade da prática. Ou seja, o retorno do velho argumento de que jornalismo se aprende fazendo. Contudo, sugere-se que a melhor maneira de realizar isso é dotando os professores de uma formação teórica em jornalismo nos cursos de mestrado e doutorado! Na verdade, a questão da pesquisa e da teoria aqui é secundária. O que importa é que os ingressantes nos mestrados e doutorados em jornalismo tenham exercido a profissão de jornalistas. Toda a lógica desses discursos aponta para uma mentalidade tipicamente corporativista, ou, melhor ainda, característica das Guildas medievais. Alem disso, tal lógica é perpassada por uma concepção de jornalismo que – sinto muito! – já não pode sustentar-se no cenário contemporâneo. As próprias noções tipicamente modernas que fundamentavam a concepção clássica do jornalismo deixaram de fazer sentido. Por mais que aqui nas terras tropicais tenhamos esse ardoroso desejo de recortar campos, de fechar domínios, de constituir reservas e de dar nomes precisos às coisas, não há como retornar aos tempos da pureza – se é que algum dia eles realmente existiram. Num sentido irônico e paródico (naturalmente), eu posso parafrasear as palavras de meu professor e dizer: “eu não creio que o jornalismo em sua configuração moderna acabou, eu sei que ele acabou!â€. O fim da exigência do diploma de jornalismo, ainda que motivado por interesses mesquinhos de ordem política ou econômica, constitui apenas um dos muitos indícios das transformações que estão em curso. Sempre existirão, é claro, os saudosistas dos bons tempos de antanho, cujo exemplo emblemático encontro na obra recente de Andrew Keen, “The Cult of the Amateurâ€. Eu os lerei com atenção e refletirei sobre seus queixumes, possivelmente compartilhando da saudade pela perda de determinadas referências amadas e familiares. Mas com um sentido de realidade forte o bastante para perceber que idéias como a da cultura participativa e da reconfiguração dos suportes midiáticos configuram marcas fundamentais do nosso presente. É possível – e provável – que daqui a 20 anos estejamos falando de outras idéias e coisas. “O tempo é uma criança que joga o jogo de pedras…â€, disse Heráclito com excelente poesia. Quem não se senta para jogar com ele corre o risco de sofrer de uma forma patológica de saudosismo. Por enquanto, a impressão que tenho é que a comunicação e o jornalismo continuarão a ter suas fronteiras esgarçadas e suas práticas e teorias transformadas em uma velocidade vertiginosa. Se nas faculdades de comunicação, uma outra expressão do pensamento reducionista configurou-se na surrada oposição entre teoria e prática, hoje, mais que nunca, a boa teoria (que é sempre também uma prática, como lembrava Deleuze) se faz necessária ao cidadão da tecnocultura contemporânea. Acaba de me vir à memória uma palestra a que assisti, faz muitos anos, na UERJ: um conhecido representante dos estudos de jornalismo desfiava, numa retórica viciada, argumentos primários e equivocados para questionar o papel das disciplinas teóricas no curso de comunicação. Em seu discurso, a prática (jornalística) se manifestava como a heroína que viria salvar o mundo da inanidade teórica. Ao final da palestra, perguntei: “mas toda a sua estrutura argumentativa não foi elaborada com base em referenciais teóricos? Se o despirmos de toda essa armadura conceitual, só resta o silêncio. Talvez essa seja a resposta mais adequada da prática à teoriaâ€. A tensão entre teoria e prática também constituiu, em muitos sentidos, uma força fundante dessa outra tensão entre a comunicação e o jornalismo. Trata-se, evidentemente, de uma falsa oposição, pois nem a prática nem a teoria existem em forma pura. No fim das contas, a questão não é confrontar práticas e teorias, mas saber dizer a diferença entre as boas e más práticas e teorias.

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500 Dias com Ela

November 10th, 2009 | Category: cinema

500 Dias com Ela. Poderia defini-lo como uma comedia romântica sem romance. Ou melhor, ele tem romance, mas que acontece em momentos e formas que não satisfazem os padrões tradicionais do gênero. Nesse sentido, ele é profundamente realista. Não apenas porque não encontramos o tradicional final feliz ou os clichês típicos do repertório hollywoodiano, mas porque todos (ou quase todos) podemos nos identificar com o que acontece aos personagens. Certamente, não se trata de um daqueles filmes que premia nossa fantasia e recompensa nossas expectativas. Despretensionamente, ele pergunta junto conosco – e sem nenhuma resposta pronta – sobre esses grandes mistérios da vida que são o amor, o sofrimento, o cotidiano… Nas desventuras do protagonista eu enxerguei direitinho uma encenação do meu primeiro (e trágico, naturalmente) grande romance. O maior mistério para quem se apaixona talvez seja essa pergunta que o sujeito tacitamente se faz e que eu sempre me fazia: “como é possível que ela não sinta nem um parcela desse gigantesco amor que sinto por ela?â€. Pois o apaixonado, na enormidade do seu sentimento, é incapaz de enxegar no coração do outro algo diferente do que se passa no seu. “Ela é um monstro cruel ou um robô?â€, pergunta ele. Não existe outra alternativa na lógica do enamorado. E, mais tarde, não faz sentido algum a menina que não queria sequer namorar estar de aliança no dedo. Ora, o mundo não faz e nunca fará sentido. Quando uma mulher te diz: “eu nunca ficaria com aquele sujeitoâ€, pode ter certeza de que ela vai acabar precisamente com aquele cara. E é pelo fato mesmo de que o dito de hoje é o não-dito de amanhã que não existe também amor eterno. Não que não possa existir relação amorosa para a vida toda, mas é que em cada momento se trata um amor “diferenteâ€. Eu hoje amo aquela pessoa como amiga, amanhã, como mulher ou vice-versa. Eu hoje a amo apaixonadamente e amanhã, a amarei amorosamente. E assim a vida segue sem nenhuma certeza. Não existe casamento, não existe contrato que possa te dar a segurança de um companheiro eterno. Em um livro lido há muitos anos e em um outro mundo encontrei esta frase: “l’amour est l’invincible habitude d’une présence devenue nécessaire à notre cÅ“ur†(Ferdinand Alquié, Le Désir d’Éternité). O apaixonado não quer que o tempo passe, não quer que nada mude, não quer despedir-se da presença que preenche seu coração. Mas o tempo e os corações são caprichosos. “O Tempo é uma criança que joga o jogo de pedras…â€. Bom, é certo que existe enorme empatia na figura do apaixonado não correspondido. Figura trágica por excelência, ele merece toda nossa simpatia por nunca ceder ao império da lógica e da razão. Ele enxerga o mundo de um modo absolutamente singular, numa forma que só existe para ele e no qual o outro, no fundo, não é mais que um coadjuvante. Pois encontra no outro apenas aquilo que ele mesmo põe lá. E se isso é patético, ridículo ou mesmo injusto para com o outro, não é menos belo ou verdadeiro. A verdade de um homem, quando vivida com tal convicção, é a verdade de todos os homens. 500 dias com ela não é um filme triste. É um filme honesto. No fim das contas, sua maior lição é que não importa o quanto saibamos que o destino não existe ou que tudo no mundo não passe de acaso. Pois é a persistente e ilógica idéia de um sentido final que sempre estaremos buscando. É essa idéia que move secretamente todos os esnobes do romantismo e todos os descrentes da transcendência. Não importa o quanto lutemos contra esses imponderáveis, eles sempre arrumam um jeito de virar o jogo.

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Francês com Samba no Pé

November 05th, 2009 | Category: Uncategorized

Nunca pensei que viveria para ver esse dia: Maffesoli sambando só de meias (vermelhas): clique aqui.

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