Archive for September, 2009

“Pensadores Esquecidos que Adoraríamos ter Lido”

September 30th, 2009 | Category: navegar é preciso...

Inauguro com este post uma nova série, a dos pensadores esquecidos que adoraríamos ter lido.  Lembro com riqueza de detalhes: pelos idos de 1997, passeando pela infinita e mágica biblioteca da UCLA, encontro o raríssimo Gottlose Mystik, de Fritz Mauthner.  Abro o livro e me deparo com essa belíssima frase, que usarei como epígrafe do primeiro capítulo de “Sliêncio de Deus, Silêncio dos Homens”: “Früher, ja früher, da die Welt noch jung war, gab es eine einzeige Sehnsucht, und die war stark, stärker als  die Liebe, doppelt stärker als de Tod” (”Cedo, bem cedo, quando o mundo ainda era jovem, havia um único anseio, e ele era forte.  Mais poderoso que o amor, duplamente mais poderoso que a morte”).  Nestes últimos meses tenho reencontado Mauthner, e por alguma espécie de misteriosa conjunção astronômica venho colhendo esporádicas referências a ele nas mais variadas leituras.  Agora, como realmente sofro de síndrome de déficit de atenção, resolvi comprar e ler esse livrinho que descobri passeando pela Powells: “Metaphors of Knowledge: Language and Thought in Mauthner’s Critique”, da Elizabeth Bredeck.  Em “Silêncio de Deus, Silêncio dos Homens”, usei algumas referências do trabalho de Silvia Dapía Die Rezeption der Sprachkritik Fritz Mauthners im Werk von Jorge Luis Borges para sugerir que a leitura prematura do austríaco refletiu-se através de toda a obra de Borges, por exemplo, na elaboração das línguas imaginárias de Tlön.  Sem relação direta com a bibiografia que estou lendo para o novo módulo da pesquisa CNPq (Cibercultura e teoria da mídia alemã), a reflexão de Mautner me interessa por sua convergência com certas tendências contemporâneas.  Seu conceito de um continuum inseparável entre mente e corpo ou sensação e conhecimento (em lugar de qualquer espécie de dualismo), por exemplo.  Outra razão para ler sobre esse cara, em meio a tantos outros compromissos e leituras prioritárias, encontra-se no curso de graduação de Tópicos II sobre Comunicação e Filosofia.  Não sei se vou fundir a cabeça dos alunos com essas referências (Mauthner, Flusser, Mark Hansen…) ou destruir minha fama como professor com discurso inteligível, mas acho que vale a pena arriscar.  Mesmo na graduação temos que ter algum espaço para ousar um pouco, para mexer com as cabeças.  Se isso não acontecer, a universidade se converte em mero escolão técnico…

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Nuit Noire

September 08th, 2009 | Category: cinema

Acabei de assistir à “Nuit Noire” (2004), de Olivier Smolders e fiquei totalmente estarrecido.  Há tempos não via imagens que me impressionassem tanto.  Foi interessante assisti-lo após ter visto “Anticristo”, do Trier, mas confesso que gostei mais do filme de Smolders.  Suas imagens, sua ambiência sombria e ao mesmo tempo de sedutora beleza, sua narrativa fragmentada e descaradamente surrealista me impregnaram.  Quem quiser assistir ao filme, basta procurar pelo Torrent (acho que está no Pirate Bay).  Vou estar semeando por alguns dias.  Enquanto isso, pode-se ler sobre ele neste excelente blog sobre (precisamente) filmes estranhos e inclassificáveis.

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Sinceridade

September 03rd, 2009 | Category: navegar é preciso...

É muito belo realmente o livro de Graham Harman, “Guerrilla Metaphysics” (sobre ele, ver meu outro blog).  Hoje, ao me deparar com sua noção de “sinceridade”, pus-me a refletir sobre um monte de coisas.  Guimarães Rosa dizia que o estilo de um homem é seu destino.  O destino não contraria de forma alguma a liberdade.  Ou então talvez a liberdade seja algo “overrated”.  O fato é que todas as coisas insistem em perserverar em seu ser.  A pedra quer ser pedra.  Eu quero ser eu.  Borges talvez tenha sido o escritor que mais lindamente meditou sobre isso.  Não sei se Harman já o leu.  Em “Biografia de Tadeo Isidoro Cruz”, Borges conta a estória do sargento que segue com suas tropa para capturar o desertor Martín Fierro. Contudo, ao observar a coragem e força com que o gaucho luta, o sargento Cruz percebe que seu destino é estar ao lado dele e tornar-se também um pária.  Abandona seus soldados e junta-se a Fierro, peleando contra eles.  Em meio a tudo de acidental que fazemos deve haver um núcleo duro, algo que garanta nossa singularidade absoluta e nosso destino único.  Entregar-se a ele talvez sejao o maior ato de liberdade que nos cabe.

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