Archive for July, 2009
Nixon X Frost
Assisti ao filme. Excelente. Como toda história de azarão, ela cativa e conquista simpatia para o personagem David Frost. Mas acaba sendo generoso também com o Nixon, faz dele uma figura cativante, trágica, que merece nossa pena e perdão. Lembrei de um texto do Umberto Eco, lido há muitos anos atrás, sobre o Nixon: “Strategies of Lying”. Tudo a ver. Importante filme (e texto) para estudantes de jornalismo.
No commentsTraité du Mystère (Alfred Wild)
L’homme qui pense est un poisson jeté sur le sable. Cet homme, que ne ferait-il pas pour rejoindre son élément naturel! Le mystère est peut-être le lieu de sa respiration.
No commentsNada
Realmente, este é o momento para se exercitar o desprendimento total. Uma atitude inteiramente ataráxica viria a calhar. Nada a desejar, nada a esperar, apenas seguir em fluxo. Esse é um exercÃcio difÃcil, mas necessário.
No commentsNa Hora da Zona Morta, sua Mente pode destruir…
Por razões de trabalho, tive de rever Scanners e The Dead Zone. O primeiro nunca me afetou muito, e talvez apenas agora eu tenha começado a perceber suas qualidades menos evidentes. The Dead Zone, por outro lado, é um filme que sempre me impressionou. Christopher Walken encarna com tanta perfeição o infeliz professor dotado de paranormalidade que seria impossÃvel imaginar qualquer outra pessoa na pele do personagem. O momento que sempre retive na memória e que sempre me fascinou foi a primeira visão de Jonhnny, quando ele toma o lugar desse “espectador invisÃvel” que assiste (curiosamente, “de dentro”) o incêndio na casa da enfermeira. Quando Walken vira o rosto de lado para a câmera e nós, espectadores, o vemos participando da cena (deitado na cama que pertence à filhinha da enfermeira), sua expressão de espanto é tão extraordinária e a espacialdade visual da situação é tão bem construÃda que nos sentimos penetrando nessa zona morta, nesse não-lugar misterioso que não é outro que o lugar mesmo do espectador. Lugar de quem está ao mesmo tempo dentro e fora, observando e sendo observado pelas imagens. Lugar de premonição, de uma visão que transcende o fluxo temporal e nos transporta para uma zona intemporal. Em Scanners, creio, o problema não é essencialmente o da visão (como em The Dead Zone), mas sim o da audição - como pretendo desenvolver no trabalho ainda a ser escrito. Em Scanners, foi curioso lembrar de Jennifer O’Neill, atriz de segunda dotada de incrÃvel beleza (e nascida aqui, no Rio de Janeiro), pois em nenhum momento conseguia deixar de me recordar do magnÃfico filme de Visconti, L’Innocente, no qual ela faz o papel da amante (Teresa) de Giancarlo Giannini (Tullio), casado com a também lindÃssima Laura Antonelli (Giuliana). Visconti gostava de usar atores hollywoodianos em decadência, como faz em Violência e Paixão ao usar o icônico Burt Lancaster no papel do protagonista sem nome (o professor). Na verdade, em Scanners, ao contrário do que acontece em The Dead Zone, todos os atores são incrivelmente inexpressivos. Talvez isso não seja coincidência. Afinal, o mundo dos Scanners é um oceano perturbador de infindáveis vozes sem rosto, o que os leva continuamente a duvidar de sua identidade. Não é casual o fato de que esse (o tema da identidade) seja um dos principais motivos do filme e que assistamos, no final, à troca de corpos entre os personagens antinômicos Cameron Vale e Darryl Revok. Apesar de apreciar A History of Violence e Eastern Promises (especialmente este último), sinto alguma saudade do Cronemberg de The Dead Zone. Ele era mais misterioso, estranho…e incômodo.

Christopher Walken no calor da hora…
1 commentCrise VIII (Renovações)
Acabei de ler a introdução da belÃssima tese de doutorado de Eduardo Guerreiro Brito Losso, “Teologia Negativa e Theodor Adorno: a Secularização da Mistica na Arte Moderna”. Faz tempos que não encontrava uma tese ou dissertação tão invigorante e madura. Extremamente bem escrita (a julgar pela introdução) e seriamente pesquisada, a tese constitui uma contribuição da maior importância ao campo dos estudos (quase inexistentes) sobre Adorno no Brasil. Mais que isso, sua reflexão vai ao encontro da crise que tenho vivido com a academia, e, portanto, essa leitura promete algumas indicações valiosas para mim e para os que estão insatisfeitos com as formas de saber e poder dominantes no ambiente universitário. Conheci o autor esta semana, de forma muito rápida, na UERJ. Eduardo me escrevera um email dizendo que havia lido meu livro “Silêncio de Deus, Silêncio dos Homens” e adorado o trabalho. Queria me conhecer e pedia um autógrafo. Eu lhe disse que se tratava de um trabalho cheio de imperfeições, mas do qual eu tinha grande orgulho por ser produto de uma paixão autêntica (algo que a academia pode nos roubar ao longo dos muitos anos de burocracia e obrigações institucionais). Felizmente, ele havia trazido consigo uma cópia da tese, que foi escrita em boa parte nos três anos passados em Leipzig, com bolsa do DAAD, sob a orientação de Christoph Türcke. Ontem à noite comecei a ler o trabalho e encontrei um texto de grande beleza e fluidez, alimentado por uma densidade filosófica incomum e por um legÃtimo amor pelo conhecimento e pela verdadeira missão da universidade. Permitam-me reproduzir um momento primoroso desse texto: “Podemos levantar a hipótese de que a teologia foi verdadeiramente sacrificada. Houve, no nascimento das ciências humanas, precedido pela emergência da metafÃsica moderna na filosofia e culminando na crÃtica à metafÃsica e à religião, um verdadeiro parricÃdio da teologia. Esse pai todo poderoso, rei da universidade, senhor da infância do saber moderno (…), foi decapitado, despedaçado, jogado para bem longe (…) Mas Adorno, antecedido por Kracauer, Benjamin e Bloch, e sob o impacto da chamada teologia dialética (Barth, Tillich, Otto), criticando-a, mesmo participando em geral desse silêncio, carregou os restos daquele assassinato consigo, alimentou-se, quase que secretamente, desse corpo esquartejado e inquiriu-se sobre seu papel naquele momento”. Continuo a leitura com expectativa e ansiedade. As doutrinas esotéricas ensinam um modo de existência que, por vezes, têm uma dimensão quase-estética. Se, como elas pregam, não existe o acaso, mas habitamos um cosmos pleno de sentido e de conexões ocultas, então este encontro adquire efetivamente um significado especial. Ele acontece em um momento no qual minha extensa revisão de valores exige a doação de um sentido “espiritual” (ainda que não religioso) ao fazer acadêmico. E o surpreendente trabalho de Eduardo já me ofereceu um novo alento nessa caminhada.
No commentsDisclosure (I)
Apparently there’s a whole bunch of people who hate my guts. It’s nice to be popular!
No commentsVampyroteuthis
É. Resolvi disponibilizar aqui, em formato PDF, o trabalho inédito apresentado no Colóquio sobre cinema e percepção. Talvez ele marque o término de um perÃodo, talvez ele seja o testamento de um passado que dará lugar a outras coisas. Portanto, aqui está ele, em estado bruto e com todas as imperfeições com que nasceu. Mas me deu prazer escrevê-lo. A senha para acessar o texto é 1234.
1 commentCrise VII (René Guénon II)
Ontem levei outro golpe, mas isso agora é irrelevante. Se não fosse por toda essa crise, não me ocuparia de tantas coisas esquecidas e deixadas para trás. Por razões inexplicáveis, reencontrei-me com um mundo que estava perdido e que merecia ser revisitado. Minha pergunta pelo verdadeiro sentido da vida acadêmica só encontrará resposta numa dimensão inteiramente diferente daquela em que a formulei nos últimos anos. De todo modo, a série de leituras heterodoxas e sem “utilidade” que tenho empreendido me trouxe uma satisfação inesperada. Curiosamente, apenas ontem, no meio da minha leitura de “René Guénon and the Future of the West” (Robin Waterfield) eu percebi que já havia lido o livro alguns anos antes. Esse esquecimento é significativo. A obra é de leitura fácil, interessante e rápida. Depois da primeira parte, com um modesto resumo da vida de Guénon, segue-se uma sintética (e por vezes superficial, mas didática) apresentação de seu pensamento. A escritura é competente e impessoal, como provavelmente Guénon teria apreciado. Sua vida, do ponto de vista exterior, poderia ser definida com uma expressiva palavra em inglês: “uneventful”. Mas, de fato, o que interessa num caso como o de Guénon é a interioridade, a “geografia do espÃrito”. Como outros personagens importantes de sua época, Guénon viveu uma existência aparentemente pacÃfica, mas recheada de revoluções interiores. No oposto disso (de modo não supreendente) estaria um caso como o de Aleister Crowley, que, como retratado na magnÃfica biografia de Lawrence Sutin, bem merecia ter suas aventuras convertidas em filme hollywoodiano. A tranquilidade da vida de Guénon constitui um reflexo exterior de sua perene busca pela unidade e pela superação das instabilidades do mundo fenomênico. Uma passagem da obra de Waterfield me chamou a atenção e a traduzo em seguida: “No Ocidente, a educação perdeu completamente seu caráter sagrado. Ela é ‘profana’ no senido literal da palavra, ‘fora da esfera do sagrado’; cortada de qualquer conexão com a verdade principial. Sua ambição é ‘prática’, seu conteúdo é materialista e utilitário, e sua audiência é universal. Toda técnica impessoal é ansiosamente empregada no sentido de reduzir o status do professor ao de um mero técnico e o do pupilo ao de um recipiente vazio a ser preenchido com o que quer que se julgue capaz de promover o progresso material” (p. 91). Nada de errado com a promoção do progresso material, mas os que já viveram numa sociedade vorazmente materialista, como os Estados Unidos da América, sabem da perturbação que essa forma de vida causa no espÃrito humano. Esse utilitarismo radical é a morte não apenas da arte, mas também da alma. Max Picard, filósofo esquecido, mÃstico de identidade dividida entre judaÃsmo e cristianismo, escreveu em 1948 que o silêncio devolve aos objetos a potência ôntica que lhes havia sido subtraÃda pelo mundo do pragmatismo (Die Welt des Schweigens). Era esse silêncio que gente como Guénon cultivava e que hoje está em falta na cultura contemporânea e na academia. Eu mesmo me havia esquecido dele. “Lingua Fundamentum Sancti Silentii”… E por isso decidi que a melhor resposta era calar-me.
No commentsCrise VI (para onde ir?)
A única maneira de vencer uma crise é esgotando-a, levando-a ao máximo de suas conseqüências, atravessando-a de um lado ao outro. Esta semana, assim que terminar (pelo menos em parte) o semestre, pretendo parar tudo e fazer uma vasta revisão de percursos, rumos e objetivos. Hoje chegaram os livros que comprei pela Alapge: “La Philosophie de Simondon” (Pascal Chabot), “Penser l’Individuation: Simondon et la Philosophie de la Nature” (Jean-Hugues Barthélémy) e “Simondon ou l’Ecyclopedisme Génétique” (de novo Barthélémy). Simondon é um investimento por longo tempo adiado, e que agora - em meio à crise - entra na ordem do dia. Por um tempo não quero saber de obrigações formais ou cumprir exigências acadêmicas (Capes, CNPq). Se não houver prazer no pensamento, se não existir um sentido maior nos processos de investigação e ensino, o melhor é jogar tudo para o alto. Para quem quiser um competente resumo de algumas tese do Simondon, pode-se consultar esse excelente post no blog do Steven Shaviro. Até o inÃcio do próximo semestre, alguns rumos têm que ser definidos, algumas atitudes terão que ser tomadas…
1 commentCrise V (Reinvenções do Eu: René Guénon)
Lendo Barbara Cassin, “Googléame: la segunda misión de los Estados Unidos”. Final de semestre: o cansaço, somado à crise, torna tudo mais difÃcil. Quem pensa que ser “pesquisador” no Brasil é fácil está muito enganado. Em meio à s muitas tarefas e obrigações (esta semana já recebi um pedido de parecer para artigo e a cartinha do CNPq cobrando relatório da pesquisa “Cartografias da Cibercultura”), o que menos conseguimos fazer é ler e pesquisar. Por outro lado, neste momento preciso ler coisas que não tenham nada a ver com trabalho, mas que sejam capazes de alimentar o espÃrito. Assim, entabulei duas leituras altamente heterodoxas: “L’Islam et le Graal”, de Pierre Ponsoye, e “La Trahison des Clercs”, de Julien Benda. O trabalho de Benda, que é virtualmente desconhecido aqui, mas que muitos qualificariam rapidamente de “conservador”, é um libelo contra a classe intelectual. Segundo ele, os intelectuais teriam abdicado de sua função de defesa dos valores eternos e desinteressados, como a justiça, a verdade e a razão, para dedicar-se a causas particulares ou ideologias da hora. Duas leituras altamente conservadoras, portanto, já que Ponsoye é um seguidor de René Génon, representante, portanto, daquele pensamento que se qualifica com o termo “Tradição” (mas num sentido eminentemente espiritual). Sim, Guénon pode ser um conservador, mas essas qualificações muito frequentemente não fazem sentido algum para mim. Guénon interessa-me como fenômeno cultural, espiritual e intelectual. Como se pode explicar que um francês, vivendo no auge da modernidade, resolva dedicar sua vida ao estudo das tradições esotéricas e do árabe e se converta ao Islã, adotando a cidadania egÃpcia? Há algo de extraordinário aqui, há um magnÃfico processo de reinvenção existencial. Quem vê as últimas fotografias de Guénon percebe como tal processo se reflete no campo fÃsico, em seu próprio corpo: ele se tornou um muçulmano até mesmo nas feições e na gestualidade. Um mistério que vale a pena explorar.
