Archive for May, 2009
Dracula’s Legacy
Acabo de ler o magnÃfico Dracula’s Legacy (Draculas Vermächtniss), de Kittler, para o paper da Socine 2009. Enquanto isso, leio aos poucos o Vampyrotheutis Infernalis, de Flusser, na beleza da lÃngua em que originalmente foi escrito (não há tradução para outra lÃngua, que o saiba). O segundo é para o Seminário Cinema, Tecnologia e Percepção, em julho. O que une essas leituras é a figura do vampiro. Um, o vampiro-sÃmbolo, o vampiro-entidade cultural; o outro, o vampiro do mar (a criatura cuja manta e habitat lembram o vampiro). No HD, uma dezena de filmes de vampiros para se assistir. O objetivo do livro de Flusser (meta também do trabalho do Seminário): “den Anthropocentrismus zu überwinden und unsere Lebensbedingungen vom Standpunkt des Vampyrotheutis zu betrachten” (”superar o antropocentrismo e considerar nossa condição vital do ponto de vista do Vampyrotheutis”) (p. 15).

Resumo da Proposta da Socine 2009
A figura do vampiro tem sido explorada pelo cinema desde seus primórdios, numa cadeia ininterrupta de reinterpretações, que leva do Nosferatu, de Murnau, ao Dracula de Coppola. Contudo, para além de qualquer psicanálise do mito ou leitura simbólica, o vampiro pode oferecer também um interessante instrumento para investigar certas percepções culturais a respeito das próprias tecnologias de imagem que o representam. Este trabalho visa à constituição do que se poderia chamar de uma “teoria vampÃrica” do cinema. Segundo Peter Weibel, o vampirismo, como forma de expressão cultural, “significa fantasmização (Phantomisierung), o lidar com fantasmas, com perdas, desaparições, espectros e a estranheza” (unheimlichem) (1996). Em outras palavras, a imagem cultural do vampiro (que, como narra a lenda, não emite reflexão) aponta para um processo de espectralização do mundo, gerado pelas imagens técnicas e pelas incertezas dos grandes avanços tecnológicos pós-Revolução Industrial. Como criatura que não gera reflexão e que entretêm com os espelhos, duplos e fantasmas uma relação Ãntima, o vampiro aparece como figura emblemática da desrealização do cotidiano que vêm afetando progressivamente as sociedades tecnológicas desde pelo menos o século XIX. Nesse sentido, talvez seja uma coincidência interessante e significativa a exploração de sua imagem tipicamente no cinema massivo, marcado precisamente por sua não “reflexividade” (reflexivity), e em oposição, portanto, à produção cinematográfica de cunho crÃtico e “reflexivo” (Stam, 1992). Contudo, como já se advertiu diversas vezes, parece existir uma relação genética entre os seres das trevas e a arte das imagens em movimento: “feito de imagens fixas, de sombras fantasmagóricas dos mortos que são reanimadas através de meios tecnológicos, o filme apresenta significativos paralelos com o vampirismo” (Abbott, 2004: p. 3). E hoje, num cenário cultural em que a multiplicação das mÃdias audiovisuais cria uma verdadeira paisagem midiática (mediascape), o vampiro adquire popularidade inaudita. A partir da década de 80 e, de forma especial, nos últimos anos, a presença dos vampiros nas telas televisivas e cinematográficas só têm aumentado (veja-se o êxito de filmes como Entrevista com o Vampiro, 1994, ou seriados como True Blood, HBO, 2008). Importa notar que as figurações mais recentes do vampirismo parecem apontar para algumas interessantes mutações culturais. Em obras recentes e singularmente estranhas, como The Wisdom of Crocodiles (Inglaterra, Po-Chih Leong, 1998) ou Let the Right One In (Suécia, Tomas Alfredson, 2008), os vampiros adquirem novos e inesperados rostos, freqüentemente mais adaptados à s inquietações e problemáticas tÃpicas da situação pós-moderna. Nesse sentido, pode-se afirmar, com Nina Auerbach, “que existe um vampiro para cada geração”. A partir da análise de algumas dessas obras, o objetivo deste trabalho é desenhar um panorama histórico-cultural das relações do vampiro com o cinema, as representações sociais e as imagens técnicas.
Abbott, Stacey. Celluloid Vampires: Life After Death in the Modern World. Austin: University of Texas Press, 2007.
_________________. “Nosferatu in the Light of New Technlogy”, in Hantke, Steffen (ed.). Horror Film: Creating and Marketing Fear. Jackson: University of Mississipi Press, 2004.
Stam, Robert. Reflexivity in Film and Culture: From Don Quixote to Jean-luc Godard. New York: Columbia University Press, 1992.
Auerbach, Nina. Our Vampires, Ourselves. Chicago: University of Chicago Press, 1997.
Kittler, Friedrich. Draculas Vermächtnis: Technische Schriften. Leipzig: Reclam, 1991.
Perez, Gilberto. The Material Ghost: Films and their Medium. Baltimore: The John Hopkins University Press, 1998.
Weibel, Peter.“Phantom Malerei - Reed lesen: Malerei zwischen Autopsie und Autoskopie” (online). disponÃvel em <http://thegalleriesatmoore.org/publications/vampirestudy/weiben12.shtml>
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