Archive for May, 2008

Pinch me, so I know I’m not dreaming…

May 31st, 2008 | Category: universidade

Hoje foi um dia particularmente estranho.  Tive a impressão de sair do mundo e entrar numa zona misteriosa, numa espécie de Twilight Zone tupiniquim onde tudo que costumava fazer sentido parecia desintegrar-se diante de meus olhos.  Fui obrigado a escutar argumentos esdrúxulos e inacreditáveis como os de que Walter Benjamin era reacionário e um pensador de segunda porque “cometeu suicídio…”.  Alô??  Terra??  Walter Benjamin foi um dos pensadores mais influentes, densos e importantes do século XX.  Fugindo dos horrores do nazismo (era judeu), foi barrado num posto de fronteira nos Pirineus quando saía da França recém-ocupada.  Supostamente preferiu tomar uma overdose de morfina do que arriscar-se a cair nas mãos dos nazis.  O que você faria no lugar dele?  Iria curtir umas férias em Auschwitz?  Digo SUPOSTAMENTE, pois a antiga tese do suicídio já não é mais uma certeza histórica e ninguém sabe exatamente o que aconteceu com ele naquela travessia (sobre isso, dêem uma olhada aqui).  Vejam bem: não costumo admirar autores apenas porque estão badalados e nem tenho o hábito de citar referências a cada parágrafo de texto.  Contudo, não conheço Benjamin só de orelhada, e me doeu nos ouvidos escutar aquilo, especialmente vindo de alguém que reputo como inteligente e erudito.  Ok, posso não “ir com a cara” de determinado autor, mesmo sem ter lido uma só linha dele.  Mas outra coisa inteiramente diferente é denegrir um Benjamin por meio de uma associação totalmente sem sentido.  Surrelista.  Não vou me dar ao trabalho de reproduzir o resto da fala, pois foi igualmente embaraçosa, com tentativas débeis de desqualificar conceitos estabelecidos na literatura da área ou outros nomes de peso, como o do grande teórico de cinema Ben Singer. It doesn’t hurt to be a little humble, does it?  Juntamente com outras situações que tenho vivido nos últimos tempos, isso me levou à indagação de certos aspectos da vida acadêmica.  Todos nós vivemos aqueles momentos em que nos perguntamos: “o que estou fazendo aqui?”; “qual o sentido de todos esses rituais e encenações?”; “por que discutir questões para as quais nunca teremos respostas finais?” (e, claro, por que continuar esperando algo da Capes quando já se sabe que algum parecerista de má vontade com a tua cara ou a tua instituição irá te negar uma fatiazinha dessas nossas parcas e ridículas verbas de fomento?).  Não tenho boas respostas para essas questões.  Mas a verdade é que a universidade é talvez o único lugar onde posso receber um salário (ainda que irrisório) para pensar, escrever e ensinar - atividades que, infelizmente, constituem minhas paixões mais viscerais.  Eu fico com a resposta do meu amigo Juremir: o motivo mais nobre e autêntico para continuar na academia e suportar todas essas vicissitudes é combater o tédio, passar o tempo.  Pois, de fato, não existe luta mais importante que a do homem contra o tédio.  Posso ter muitas pretensões e veleidades.  Posso sonhar em mudar o mundo, em denunciar as injustiças sociais, em despertar um senso crítico nas mentes impúberes dos meus estudantes, mas no fim das contas o que fica é a luta contra o tédio.  E não faltam momentos emocionantes na vida acadêmica quando escutamos pérolas desse tipo.  Sim, a academia é mais divertida, provinciana e surreal do que se costuma imaginar.

5 comments

YouTube!

May 25th, 2008 | Category: tecnologia

 

 

 

Duas conquistas em um dia.  Consegui fazer o “upgrade” do meu WordPress para a última versão e finalmente descobri como inserir vídeos do YouTube no blog!  Para comemorar a descoberta, aí em cima está o belo videoclipe da música L’éphémère, de Alexandre Désilets.

2 comments

Teeth

May 25th, 2008 | Category: cinema

Já que falei de crueldade no último post, nada mais apropriado do que discutir este interessante, assustador, risível e criativo filme de Mitchell Lichtenstein (filho do famoso artista Roy Lichtensteion).  Peguei o filme no Azureus e o assisti hoje à noite, após ter voltado do cinema - onde fui ver Speed Racer (interessante contraste).  Teeth toma o arcaio mito da “vagina dentata” e o transforma num filme de horror, intencionalmente “trashy”, mas ao mesmo tempo delicado e singular (para uma excelente interpretação do filme, vejam o blog do Steven Shaviro).  Trata-se de um filme radicalmente libertário para as mulheres, ainda que, de forma sábia, não apresente nenhuma solução ou pacificação final.  A jovem protagonista, que descobre a terrível maldição de possuir uma “vagina dentata”, vai aos poucos tomando consciência da utilidade dessa singularidade anatômica, e acaba convertendo-a em um instrumento de “empowerment”.  Shaviro inteligentemente compara Teeth ao The Brood, do jovem Cronenberg.  Em ambos os filmes, fantasmas e fantasias psíquicas são convertidos em realidades corporais.  O medo da castração e o pânico diante dos mistérios femininos são brilhantemente encenados em um filme que consegue ser, ao mesmo tempo, irônico (consigo mesmo, inclusive) e profundamente sério, para não dizer perturbador.  Acho pouco provável que o filme chegue aqui, o que é uma pena.  No campo do cinema de horror, que tem andado tão banal e inexpressivo, ele representa um sopro de renovação.

2 comments

Prazeres da Crueldade

May 24th, 2008 | Category: livros, navegar é preciso...

Comprei, num sebo de Curitiba, este livrinho alemão com historinhas do Hoffmann.  Os pais faziam as criancinhas lerem estas narrativas em versinhos com intuitos “educativos”.  Tremendamente cruéis para os parâmetros atuais, elas serviam para ensinar lições de moral ou educar naquilo que a criança não devia fazer.  Existe, por exemplo, a historinha da pobre “Paulinha”, que resolve brincar com fogos de artifício e acaba virando uma pilha de cinzas…

os versinhos finais são deliciosamente divertidos: “Und Minz und Maunz [nomes dos gatinhos da Paulinha], die kleinen, die sitzen da und weinen: ‘Miau!Mio!Miau!Mio! Wo sind die armen Eltern, wo?’  Und ihre Tränen fliessen wie’s Bächlein auf den Wiesen”.  Minha tradução livre: “E Minz e Maunz, os pequenos, ali sentados e chorando: ‘Miau, Mio, Miau, Mio!  Onde estão os pobres pais?  Onde?’  E suas lágrimas fluem como o riacho na pradaria”.  É surpreendente se dar conta da violência e do terror dessas historietas, ensinadas às crianças desde cedo entre os séculos XVIII e XIX.  Também é surpreendete lembrar que as versões originais dos contos da carochinha, como Chapeuzinho Vermelho, eram muito mais cruéis e violentas.  Contudo, toda essa violência não se refletia, necessariamente, em traumas ou psicoses na vida adulta.  Esta semana, após o retorno de Curitiba, fui entrevistado pela televisão duas vezes.  Na segunda, foi um jornal da tevê Futura sobre jovens e videogames.  E aí veio aquela tradicional e tola questão sobre os “aspectos negativos” dos games e sua violência no imaginário dos adolescentes.  Não, não são filmes, histórias ou videogames que geram violência na sociedade.  É a falta de modelos paternos adequados, inclusive na figura do estado, omissa, distante e, quando atuante, violenta.  Não é a ficção que deve assustar ou deseducar.  É a realidade.

2 comments

Roteiro do Vídeo sobre Pós-Modernidade

Aos alunos de Comunicação e Cultura I: aqui vocês encontram o roteiro do vídeo sobre pós-modernidade.  Boa leitura!

2 comments

Dialogue

May 08th, 2008 | Category: navegar é preciso...

Donnie: “when is this gonna stop?”

Frank: “you should already know that”

1 comment

Da Série “Frases de Pára-Choque de Caminhão” (II)

May 05th, 2008 | Category: navegar é preciso...

Eu odeio essa aqui: “me criticar é fácil, difícil é pagar minhas contas”.  Que diabos uma coisa tem a ver com a outra?  A estupidez dessa frase só é ultrapassada por seu tremendo mau gosto.  E se eu pagar tuas contas, daí posso te criticar?  Eu prefiro que você pague as minhas e me critique à vontade.  Espera aí, estou sendo injusto: a bem da verdade, é fácil mesmo criticar o beócio (busquei no fundo do baú) que põe essa estupidez colada no carro.

1 comment

Da Série “Frases de Pára-Choque de Caminhão” (I)

May 05th, 2008 | Category: navegar é preciso...

“Eu não sou dono do mundo, mas sou filho do Dono”.  Essa aí aparece geralmente em stickers (adesivos) de carros de crentes.  Eu queria escrever uma resposta, algo como: “então paga as promissórias dele que estão vencidas!” ou “ah, então o culpado é teu pai?”.  Além de pretenciosa, naturalmente, a frase é ridícula.  Eu prefiro esta outra aqui, bem mais inteligente e divertida: “Jesus loves you.  Everybody else thinks you’re an asshole!”.  Para completar, temos: “em caso de arrebatamento, este carro ficará desgovernado”.  Às vezes não precisa nem o cara ser arrebatado para isso acontecer.  Mas se ele fosse mesmo arrebatado e desaparecesse, o carro desgovernado seria um preço pequeno a pagar por existir menos um idiota no mundo. Outra mais simplezinha, mas igualmente brega é “amo minha esposa”.  Ok, mas por que razão o resto do mundo precisa saber disso?  Eu queria mesmo é ver uma difícil como “amo minha ex-esposa” ou “amo minha sogra”.  Isso é que seria ser crente!

3 comments

Murphy’s Law

May 05th, 2008 | Category: a vida como ela é...

Confesso: hoje estava num clima extremamente anti-social.  Mesmo assim, prefri ir para a rua e ver gente do que ficar em casa.  Fui ao cinema ver “Homem de Ferro”.  Ir ao cinema sozinho já não é o ideal.  Mas como se não bastasse, na entrada do cinema vejo uma menina que conheço apenas de vista, mas que admiro (à distância) há algum tempo.  Junto com ela, o namorado, muito, muito feio.  Compro a entrada (lugares numerados) e me sento bem no meio da sala.  Para completar meu infortúnio, num cinema com mais de 200 lugares, eles se sentam exatamente ao meu lado.  Quer dizer, o sujeito senta do meu lado.  Ouço os dois conversando e percebo que, além de esquisito, o cara também é um completo idiota.  Do meu outro lado, um casal semelhante se senta (garota bonita, sujeito feio).  Naturalmente, o outro sujeito também está no lugar adjacente e logo toma o braço da cadeira.  Minutos depois, porém, percebem que cometeram um erro e mudam de lugar.  Meu alívio foi apenas temporário.  Rapidamente aparece um velhinho que se move com o entusiasmo de um caracol e senta na cadeira recentemente abandonada, avisando que pode ser “que não fique até o fim do filme”.  Penso: “será que o acaso tem prazer em nos provocar exatamente nos dias em que a gente não está para provocação?”.   Em horas como essa eu me pergunto: “Warum habe ich keine Freundin?  Was ist los?”.  Não, o universo não conspira a nosso favor.  Há algo de terrivelmente errado com ele.

5 comments

Lingua Fundamentum Sancti Silentii (ou, saindo do silêncio)

May 03rd, 2008 | Category: livros

Pois é, demorou 10 anos, mas finalmente ele está saindo.  Silêncio de Deus, Silêncio dos Homens: Babel e a Sobrevivência do Sagrado na Literatura Moderna é meu terceiro livro e deverá sair junto com o quarto, A Imagem Espectral: Comunicação, Cinema e Fantasmagoria Tecnológica (Ateliê Editorial).   De lá para cá, muita coisa mudou.  Algumas teses amadureceram, algumas crenças mudaram, mas ao longo de todos esses anos eu sempre quis ver esse texto publicado.  Ele sai na coleção “Imaginário Cotidiano”, com textos de apresentação do Muniz, Italo e Juremir.  Todos os textos foram muito bem escritos e muito me honra tê-los no livro.  Contudo, a apresentação escrita por Italo, amigo e orientador desta tese, me tocou de modo especial.  Como ela não poderá sair inteira no livro, agradeço ao Italo reproduzindo-a aqui.

“Silêncio de Deus, Silêncio dos homens é uma reflexão ambiciosa sobre modernidade cultural. Dono de impressionante erudição, rara não só na sua, mas em qualquer geração, Erick Felinto faz mais que um percurso pessoal pelas questões centrais da modernidade. Compõe um autêntico panorama histórico-filosófico, olhando a modernidade pelo avesso, definindo-a pelo viés do místico, do esotérico, do sagrado. Importante companheira de viagem nessa empreitada é uma leitura da obra do escritor argentino Jorge Luis Borges. Erick Felinto chegou à crítica da cultura pelo clássico caminho da crítica literária, a partir da combinação entre uma formação pós-graduada híbrida de Comunicação e Letras e uma espécie de auto-didatismo voraz que o fez incursionar pela Torah e pela Cabala, lembrando os marcos reflexivos de um Walter Benjamin. A resultante de tal combinatória se dá na clave do brilhantismo.            

Em contraste com um pós-modernismo de celebração, o pós-moderno de Erick Felinto pertence à vertente que, na crise de valores do fim do século 20, percebe a chance de dar um novo alento aos argumentos místicos e metafísicos, explorando contradições e paradoxos intrínsecos ao conceito dinâmico de modernidade. É profundo o desejo de espiritualidade que percorre as páginas do presente livro. Erick deixa de lado a ironia pós-metafísica de Borges e dele, resgata, reativa, a poética do Aleph. No entanto, ironia da história, ironia deste projeto intelectual que o leitor e a leitora têm agora em mãos: a face harmoniosa do deus não se mostra no final.

Resta o sabor de um desejo de Deus, mas, modernamente falando, Deus não está lá, Deus abandonou os homens. Era difícil para o Erick aceitar isso, quando escreveu este livro: antes que abandonássemos o deus, no tema moderno da morte de Deus prevalece a idéia de que foi Ele que nos abandonou primeiro. Nós, modernos e pós-modernos, somos órfãos à deriva, deixados à vivência desértica da história demasiadamente humana e da tecnologia sempre-igual. Temos aqui uma modalidade proto-histórica na evolução do pensamento do intelectual universitário Erick Felinto. O leitor e a leitora não se decepcionarão, se o que buscam é inteligência, aliada à erudição.”

 

2 comments