Archive for April, 2008
O Pós-Moderno Explicado em 10 Minutos

Aà em cima, temos o poema “Pós-Tudo”, de Augusto de Campos. Ele expressa bem uma experiência cultural onde tudo se transformou e todos os valores se dissiparam. Para ajudar os alunos a entenderem um pouco melhor o pós-moderno, elaborei esta apostila aqui. Ela apresenta um rápido e eficiente resumo de algumas tendências de nossa estranha e interessante cultura. Depois de lê-la, pergunte-se: “eu sou pós-moderno?” (eu ainda estou tentando descobrir).
2 comments“Que Situação, hein Debord?”

Esse evento, de tÃtulo bem divertido, foi bolado pelo Marcus, e está acontecendo no CCBB, com mostras de filmes do e sobre o Debord, além de palestras de gente como a Ivana e o Henrique (Antoun). Eu falo na terça-feira, dia 29, à s 19 horas, sobre sociedade do espetáculo, cibercultura e imagem.
No commentsDF e a Sociedade do Espetáculo
BrasÃlia ilustra bem a tese de Debord de que todas as relações sociais passaram a ser mediadas pelo espetáculo. Em BSB, tudo é farsa, encenação, simulacro. A cidade é uma abominação, e enquanto ela existir, como diria Borges, “ninguém no mundo poderá ser valoroso ou feliz” (Cf. El Inmortal). Em que outro lugar da terra um taxista nos perseguiria do restaurante até o hotel por termos ligado para a cooperativa e depois decidido tomar outro táxi? Dessa vez, para completar o horror da experiência, ficamos num hotelzinho tremendamente sem vergonha (os sacrifÃcios que não fazemos para economizar o dinheiro da Compós!). Tudo nos nossos aposentos era patético, especialmente a longa lista com instruções e regras que adornava a porta do quarto, e mais especialmente na sua versão em inglês: “O Breakfast is be served in the restaurant…The payment must be prompt, it is since requested…”. Entenderam? Nem eu… Sim, naquele território de terra vermelha, o mundo perde consistência, a realidade vacila. Nas entradas dos hotéis, figuras suspeitas tentam nos vender pedrinhas semipreciosas; nos restaurantes (em sua maioria deploráveis), a aparência e o preço da comida nos iludem a crer que iremos saborear um banquete. Em meio a esse espetáculo macabro, só nos salvou a visista ao La Creperie, um dos crepes mais deliciosos que comi em toda minha vida (Quadra 103 Sul) - maravilha descoberta graças à hospitalidade de Adalberto, que no último Intercom me levou lá. Bom, terça-feira, dia 29, vou falar no CCBB sobre Debord e a cultura das imagens digitais. BrasÃlia vai temperar minha fala…
No commentsEm Trânsito
Véspera da ida à BrasÃlia. A cidade não me anima, mas por outras razões encontro algum ânimo em retornar a esse deserto. BrasÃlia é um território simulacral em todos os sentidos possÃveis. Como tenho me sentido algo fantasmagórico, talvez dessa vez consiga ficar à vontade lá. Hoje finalizei o Ãndice onomástico e temático do livro (Silêncio de Deus, Silêncio dos Homens: Babel e a Sobrevivência do Sagrado na Literatura Moderna). Quero tentar lançar os dois - este e A Imagem Espectral: Comunicação, Cinema e Fantasmagoria Tecnológica - no encontro da Compós. Vamos ver se dá. O segundo é fruto de loucuras atuais, mas o primeiro me traz de volta preocupações passadas, obsessões há muito tempo esquecidas. É bom. Quero recordá-las. Quero voltar a escutar os silêncios de Deus.
1 commentEstética do Frio
Aqui faz frio. Os dias em Curitiba não foram tão bons quanto imaginei. A tristeza caminhou na ponta dos pés, sempre sorrateira e sempre atrás de mim. Mais que nunca me senti como estrangeiro, perdido em um paÃs exótico que não consigo entender. E eu constatei com clareza minha falta de jeito para viver. Quanto mais penso, menos sentido fazem o mundo e as pessoas. As ruas desertas serviram, assim, como sÃmbolo da aridez cultivada no interior da alma. Fernado Pessoa disse que “uma tristeza é como um lago morto dentro de nós”. Nestes dias, o tempo ganhou substância e peso intoleráveis. Eu existo em um limbo, sonhando com outros lugares onde nunca estive e com uma humanidade que nunca existiu. Eisamkeit…es gibt keine Menschheit mehr…
3 commentsHigh Techné: Artes e Tecnologias do Pós-Humano
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O livro de R.L. Rutsky, High Techné: Art and Technology from the Machine Aesthetic to the Posthuman, é um dos trabalhos mais brilhantes que já li sobre as complexas relações entre estética e tecnologia na modernidade. A tese central de Rutsky é que a modernidade sonhou com a possibilidade de reunir dois mundos em princÃpio mutuamente excludentes (e que ela mesma ajudou a separar): a racionalidade frgamentária e controladora da tecnologia e o poder mágico e totalizador da natureza. Enquanto a ciência e a tecnologia se afirmaram como forças de análise, separação e controle - sempre em busca da instrumentalização da natureza -, o poder mágico da arte seria trazer de volta a unidade perdida, uma reconciliação com a natureza, uma retomada, pelo sujeito, de sua morada originária. A ponte entre esses dois princÃpios foi encenada diversas vezes em nosso imaginário, por exemplo, em filmes expressionistas como Metrópolis, onde Freder atua como mediador entre o cérebro (seu pai, o racional controlador supremo da cidade) e os braços (os operários convertidos em autômatos).    É a repressão desses poderes femininos da natureza, sufocados pelo racionalismo patriarcal da modernidade, que converte a tecnlogia em uma entidade “desmorta” (undead), nem completamente viva nem inteiramente inanimada, uma monstruosidade como Frankenstein, feita de fragmentos de corpos mortos, feia e disforme. O retorno do reprimido libera os pesadelos com a tecnologia animada por forças mágicas, a ameaçar a autonomia do sujeito cartesiano em sua soberania sobre o mundo. Surge, então, uma alteridade monstruosa (essencialmente feminina ou ciborgue) que assombra o racionalismo moderno sem descanso. Em um exercÃcio de extraordinária proeza intelectual, Rutsky tece uma teia que agencia, em favor de suas teses, o pensamento de Heidegger, Freud, Benjamin e muitos outros modernos. Heidegger denuncia, por exemplo, esse desvirtuamento moderno da essência da técnica, que em si nada tem de técnico (o paradoxo aparente dessa idéia é análogo à afirmativa de Benjamin de que nenhuma tradução artÃstica é feita em benefÃcio do leitor incapaz de compreender o original. Cf. Die Aufgabe des Übersetzers). A techné grega era poeisis, um vir-à -tona das coisas, um processo de criação cujo modelo principal era a força da physis, a natureza, capaz de se autogerar.  Mas a técnica moderna é uma forma de controle da natureza, tornando-a apenas uma reserva à disposição do homem. É isso que a noção de “emolduramento” (Gestell) representa: um aprisionamento das forças livres e criativas da natureza por uma racionalidade técnica repressora e instrumental. As divisões e cisões produzidas pela modernidade têm, no imaginário moderno, de ser resolvidas, têm de ser tornadas integrais (made whole). Esse era, por exemplo, o apelo da “estética” nazista que prometia, na figura do lÃder e mediador (Mittler), a reintegração da racionalidade instrumental no paraÃso perdido da unidade original. Se jamais fomos modernos, como sugere Bruno Latour, é porque a própria modernidade já sonhava com as hibridações, com a reunião daquilo que a modernidade propunha separar radicalmente (natureza e tecnologia, magia e ciência, sujeito e objeto, espÃrito e coisa). É nesse sentido que podemos entender essa frase de Rutsky: “Essa modernidade tecnológica é vista, ela mesma, como dividida entre uma tecnologia hiper-racional que reprime (ou mecaniza) o natural e o retorno dessa natureza reprimida na forma de uma tecnologia caótica e freqüentemente sobrenatural” (pg. 55). O desejo reprimido ressurge na forma de uma força libidinal, destrutiva, inteiramente instintiva e sem controle. A reflexão de Rutsky encontra aplicação especialmente rica no campo da cibercultura, manifestação dessa “high techné”, na qual a forma e o design superam o mito modernista da funcionalidade, dando origem a uma visão da tecnologia como pura aparência, como imagem. Não é à toa que nossas tecnologias digitais são essencialmente tecnologias simulacrais - e desse modo colaborem para a construção de uma pós-modernidade que é, mais que tudo, um mundo de telas, imagens e de um desejo de memória total em meio à perda progressiva da memória. Rutsky é um crÃtico sutil, perfeita combinação, muito em voga nos dias de hoje, entre duas outras figuras aparentemente incompatÃveis: o teórico e o consumidor da cultura pop. É por isso que nenhum objeto hoje é indigno ou “pop” em demasia para ser apropriado pela academia. Na hiper-memória pós-moderna já não existe escala de valores que separe Dante e Shakespeare de William Gibson ou Matrix.  E é por isso também que Rutsky não se acanha em usar a figura “pop” de Keanu Reeves para produzir uma brilhante reflexão sobre cinema e pós-modernidade (clique no tÃtulo para ler o artigo Being Keanu). High Techné é um livro para ser lido e relido, digerido com calma e com paciência chinesa (ou talvez tolerância). Eu recomendo veementemente sua leitura, na esperança (possivelmente vã, eu confesso) de que mesmo as almas impacientes de hoje consigam, após engasgar por algumas páginas intrincadas, obter mesmo que uma pálida epifania intelectual. Não há nada mais excitante que vislumbrar as tramas secretas do presente. Compre aqui o livro de Rustky pela Amazon.
2 commentsComunicação e Cultura I: dois pequenos textos para aula
Gente, aqui vocês acham dois textos para leitura (vamos usá-los esta semana, de 7 a 10 de abril). O primeiro texto é um “relato etnográfico” sobre a tribo dos Nacirema. O segundo é uma pequena apostila sobre o texto de Clifford Geertz que está na pasta 32. Ótimas leituras para o fim de semana…hehehehe…
No commentsSublime Sucubus
Entre os blogs de que sou fã, destaca-se o “Sublime Sucubus”, de Carrie White, a estranha. Suas tiradas inteligentes sobre cultura de massa, polÃtica, o cotidiano (a miséria do cotidiano) e as experiências desesperadoras do ser feminino me divertem enormemente. Ser mulher deve ser difÃcil, como pressentimos nos relatos de Carrie. Mas ser homem também tem enormes desvantagens: mulher não broxa, mulher não tem de ser “macho”, mulher não precisa fazer a barba, mulher não é acusada (geralmente) de ser insensÃvel, mulher pode dar sempre a desculpa da tensão pré-menstrual. É, eu nem ia escrever de novo sobre esse tema das diferenças entre homem e mulher (ver o comentário de Carrie ao meu post de 19 de fevereiro), mas não teve jeito. Que fazer se esse é o grande tema que nos intriga e deixa perplexos? Carrie me ajuda a entender melhor a imponderabilidade - muitas vezes extenuante para nós, homens - do ser mulher. Mas também me ensinou outra lição vital: a importância do cotidiano, com suas pequenezas e mesquinharias, que, no fim das contas, são o que realmente conta na vida (acho que Borges diria algo semelhante, depois explico por que).
eis o link: Sublime Sucubus
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