Archive for March, 2008

O Bom Fim é apenas um Começo…

March 31st, 2008 | Category: livros

Sinto Porto Alegre como algo mais que uma cidade.  É uma experiência, um afeto, um estado de espírito, uma nostalgia.  Lá estive semana passada em infindáveis bancas e reuniões.   Meu amigo Juremir Machado da Silva, agora agraciado com o título de “chevalier de l’académie” (mais chique que isso, impossível) pelo governo francês, presenteou-me com seu último livro, “Antes do Túnel, uma História Pessoal do Bom Fim”.  Li o livro ainda em Porto Alegre, quase que de uma sentada só.  Creio que é um dos mais belos textos que Juremir já escreveu.  Ele tem uma qualidade rara, típica daquelas obras que nos transportam em sua narrativa para os cenários e situações que descreve.  O pequeno livro não somente nos apresenta o Bom Fim, ele o torna presente para nós, no sentido mais forte do termo.  Ele presentifica sensações, histórias e personagens.  Desse modo, aos poucos fui me sentindo envolvido em um passado que não vivi, mas do qual me aproprio com gosto.  Discípulo da sociologia do imaginário, de Maffesoli e desse grande e pouco lido mestre Gilbert Durand, Juremir afirma que o Bom Fim, mais que um bairro, é um “imaginário”.  Não há dúvida: estamos constantemente imersos no imaginário, e nossas memórias, nossas localidades de afeto, nossas paixões só existem enquanto mergulhadas na bacia semântica do mundus imaginalis (para usar a bela expressão de Henry Corbin).  O Bom Fim transcende, assim, a condição de locus físico e se converte em entidade metafísica.  Desse modo, não custa crer que exista um Bom Fim no topos ouranos, o mundo platônico das idéias.  Com os odores, imagens e habitantes desse lugar, vêm-nos a reboque um conjunto de noções e ideais hoje algo démodés: “revolução”, “liberdade”, “rebeldia” e “transgressão”.  “O Bom Fim, o nosso Bom Fim, não era apenas um bairro, uma história, uma geografia, mas era e é uma forma de ser no mundo”, escreve ele (pg. 77).  Meus lugares da imaginação não foram, sinto confessar, tão revolucionários.  Cresci em uma Tijuca conservadora e provinciana, vivi em uma Los Angeles pós-moderna e sem utopias, adotei uma Buenos Aires de livrarias e cafés elegantes, mas cada vez menos hístória.  Contudo, senti-me no direito de reivindicar para mim algo dessa Porto Alegre de uma juventude mais consciente e libertária, desse rescaldo daqueles “anos rebeldes” que foram os anos 80, quando todas as utopias já começavam a declinar.  Com extrema exatidão e uma dose de poesia, Emanuelle Severino comparou o aprendizado filosófico ao passeio do caminhante peripatético.  Para aprender filosofia, não basta ler os textos dos filósofos.  É necessário vivenciá-los, como se estivéssemos perambulando pelas ruas de uma cidade e aprendendo todos os seus becos, esquinas e segredos.  Juremir faz o percurso inverso: produz uma experiência filosófica a partir de uma exploração pela cidade.  Em uma das mais belas partes do texto, ele constrói uma outra geografia do bairro (como fazia Borges em sua Buenos Aires imaginada, aquela da quinta de “Triste-le-Roy” e do “Hôtel du Nord” ), sugerindo novos - e mais significativos - nomes para suas ruas: “rua do Ocidente”, “Travessa do Vermelho 23″, “Avenida do Brique”, “rua da Poesia”, “rua das cadeiras de Roda”, “rua da Lua” (pg. 75).  Eu caminhei por essas ruas, sempre saudoso de passados inexistentes e fantasmas que não eram meus.  Revi minha história e minhas memórias de cheiros e peregrinações noturnas, incluindo nela a alegria e a orgia dos bares do Bom Fim.  Esse é o poder do imaginário e da literatura, uma dádiva gentil de quem escreve a quem lê.  E, como dizia ainda outra vez o sábio Borges, “os bons leitores são cisnes mais raros que os bons escritores”.  Pois eles sabem imaginar.

post scriptum: leiam aqui os que assim desejarem um texto meu sobre cidades imaginadas e o ciberespaço (publicado em Prysthon, Angela. Imagens da Cidade: Espaços Urbanos na Comunicação e Cultura Contemporâneas. Porto Alegre: Sulina, 2006).

1 comment

Heraclitus

March 25th, 2008 | Category: a vida como ela é...

It is time to let go.  Stop swimming against the stream and rest.  Nothing left to say or do.  I am weary now.

No comments

Ponto de Vista

March 25th, 2008 | Category: cinema

“Ponto de Vista” (Vantage Point) parte de um conceito interessante, mas não consegue realizá-lo com êxito.  A idéia do perspectivismo nasce na filosofia e hoje vem morar na cultura de massa.  Nietzsche foi, senão o primeiro, o mais decidido relativista: “não existem fatos, apenas interpretações”.  Hoje, Hollywood nos oferece uma versão digerida, facilitada e bastarda dessa noção.  O mesmo acontecimento, observado a partir de uma variedade de pontos de vista, revela uma instabilidade do fato que a atividade do jornalismo faria tudo para ocultar.  Pois o jornalismo trabalha com fatos… ou não?  O fato bruto não passaria de uma grande ilusão?  É isso talvez que “Ponto de Vista” coloca em discussão.  Mas não é casual o fato de que a imagem decisiva, aquela que oferece a resolução da charada, se encontre na fita de vídeo gravada pela equipe de televisão.  De algum modo, a mídia acaba reafirmando seu poder.  Ela diz: “observe com atenção… eu ainda guardo uma surpresa final.  Eu trago de volta o fato, registrado no meu olhar que tudo apreende e que produz verdade”.  Mas reconheçamos: essa coisa de o filme ficar repetindo, não sei quantas vezes, a mesma cena é um saco.  Não é que nem ver replay de jogo de futebol.  Enche a paciência do público, que no cinema mostrava sua insatisfação.  E qual é a moral final de todo essa pretensão de experimentalismo narrativo?  O presidente dos EUA é resgatado dos malignos terroristas por seu fiel escudeiro.  A incrível sofisticação da trama bolada pelos vilões é toda desfeita numa simples e tradicional perseguição de carro, onde o bem, claro, triunfa novamente.  Contra todo esse planejamento e intelectualismo do inimigo, o bom e velho “american muscle”.  E tudo termina em porradaria.  Essa é a única interpretação aceitável.  Ou existirão outras?

1 comment

Material da Disciplina Comunicação e Cultura I

March 20th, 2008 | Category: curso de comunicação e cultura, universidade

Para meus alunos de Comunicação e Cultura I, cliquem aqui para o Programa da Disciplina.

No comments

Material da Disciplina Comunicação e Imagem

March 15th, 2008 | Category: curso de comunicação e imagem, universidade

Para meus alunos de Comunicação e Imagem na UERJ, este post conterá todo material importante para o curso em formato PDF.  O plano completo de curso pode ser encontrado aqui.  A apostila 2, com a história em quadrinhos do Wolinski está aqui e a apostila 3, sobre a análise da imagem segundo Martine Jolly está aqui.

2 comments