Archive for February, 2008

Women: love them or leave them…

February 29th, 2008 | Category: a vida como ela é...

Dizem que escrever é liberador, e acho que é verdade.  Senti isso muitas vezes.  Transformar toda a raiva do mundo em palavras, explodir em adjetivos alegres e purgar tristezas com verbos sombrios é a dádiva da escritura.  Alguns acham que ela deve ser secreta e íntima e que expor sentimentos tão pessoais é um equívoco.  Nesse sentido, o desnudamento da intimidade que certos blogs propõem seria um erro ou um risco muito grande.  Mas que graça existe em colocar angústias em palavras se não imaginamos que alguém algum dia em algum lugar possa fazer eco a nossas infelicidades e rompantes?  É uma comunidade humana imaginada, que nos alivia um pouco da assustadora solidão do mundo.  No fim das contas, não existe nada mais importante ou impossível que ser entendido.  É o que queremos: que nos ouçam, que nos compreendem, que sintam conosco, que exista essa coisa mágica chamada “empatia”.  Hoje decidi que iria falar mal das mulheres, possivelmente uma péssima decisão, dado que as (poucas) que me lerem aqui podem indispor-se com o autor.  Não me entendam mal: adoro as mulheres e aprecio muito sua companhia, razão pela qual sinto ainda mais fortemente os riscos de desabafar neste texto.  Mas se existem tantos blogs femininos cujo objetivo é fazer humor com os traços da raça masculina, por que não posso, em um momento de exaltação, admito, apontar as peculiaridades delas que me perturbam?  Hoje assisti a um pequeno “Hollywood” na televisão.  A tradicional história do amor proibido em cores modernas.  Moça muito bonita, rica e negra se apaixona por rapaz bonito, pobre e branco.  No fundo ela o ama, mas não sabe o que fazer com ele.  Terrível essa sensação de que não sabem o que fazer com você, não é mesmo?  No final, claro, ela se dá conta de que todo o resto é secundário diante de seu amor, abandona seu orgulho e convicções e sai em busca dele.  Final feliz: Hollywood é cruel nos oferecendo esses desfechos onde as coisas sempre dão certo, onde a música acompanha os momentos de felicidade, onde todos os desencontros serão desfeitos.  Na vida real, há muito mais desencontros.  E nem sempre são os homens, com sua suposta frieza, os culpados disso.  Já vi muitos sujeitos chorarem e desesperarem por mulheres, de um modo que põe qualquer choro feminino no chinelo.  Talvez os homens sejam mais pragmáticos, não tenho certeza.  Mas certamente são mais fáceis de entender que as mulheres e quando sentem, sentem terrivelmente.  A alma feminina é cheia de meandros e dobras.  “La Donna è mobile, qual piuma al vento, muta d’accento e di pensiero…” Exemplo: perdi a conta das amigas e conhecidas que me juravam de pés juntos que jamais ficariam com tal ou tal cara, para mais tarde estarem de casamento marcado com ele.  Exemplo: na intimidade do leito elas sussurram palavras de amor para depois sofrer de uma incrível amnésia emocional e esquecer tudo.  Exemplo: elas dizem querer um homem sensível e gentil, mas na hora de escolher freqüentemente dão o braço ao neandertal e acolhem alegremente a clava em suas cabeças.  Claro que estou caricaturando, mas com base em situações reais e comuns, que mostram que não são apenas os homens os indecisos, os pragmáticos, os volúveis.  As mulheres nos confundem: e muito.  Pode ser que isso faça um pouco parte da graça e do fascínio que sentimos por elas.  Mas não há como não se irritar quando a frase: “você é muito interessante” de um dia se converte na sentença: “minha vida está tão complicada, acho que não estou com cabeça para essas coisas agora” do dia seguinte.  E assim segue nossa vida cheia de desencontros, muito diferente das doces parábolas hollywoodianas.  Talvez o destino do mundo se cumpra no dia em que duas pessoas consigam se ouvir e se compreender de forma absoluta.  Mas como chegaria esse dia se mesmo nosso diálogo interior é freqüentemente incompreensível, se a distância entre eu e mim mesmo é tão intrasponível?

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Evoé Baco: Carnaval, Filmes e Alquimia

February 03rd, 2008 | Category: cinema, livros

Carnaval, para mim, é uma espécie de “retiro espiritual”.   Eu me tranco em casa, geralmente com uma pilha de livros e filmes.  Com a chuva e o telefone em silêncio quase que absoluto, este ano meu isolamento foi ainda mais radical.  Na sexta, saí e fui até Ipanema, assistir ao novo filme dos irmãos Cohen, “No Country for Old Men”.  Certos filmes incomodam a gente de uma maneira especial: você sai do cinema angustiado, talvez até insatisfeito, mas não consegue esquecer o que viu.  Aquele incômodo continua te perseguindo na rua e você se dá conta de que algo especial aconteceu.  É assim “No Country for Old Men”, filme absurdamente anti-hollywoodiano e anti-climático, a tal ponto, confesso, que chegou a me irritar.  Não é um filme para todos os espíritos, e demora algum tempo para ser digerido.  É um filme que te engana, que te leva a crer numa trama de ação policial com o bem finalmente suplantando o mal [ATENÇÃO: SE PRETENDE VER O FILME NÃO CURTE “SPOILERS”, NÃO LEIA O QUE VEM A SEGUIR].  De repente, tudo muda, de maneira até displicente, banal.  Só bem no final, percebemos que o simpático mocinho caipira não é o foco da atenção da história (aliás, os irmãos Cohen usam o mesmo personagem no divertido curta que apresentam em Chacun son Cinema).  No fundo é uma narrativa seca, sem moral, onde as principais figuras nem aparecem tanto, mas organizam toda a dinâmica narrativa.  Javier Barden e Tomy Lee Jones interpretam com maestria excepcional essas duas figuras, do velho xerife cansado com um mundo que não consegue entender e do pistoleiro psicopata cujo simples olhar gela de pavor suas vítimas.  Fotografia extraordinária, atuações extraordinárias e cinematografia de primeira, não há dúvida.  Mas o que realmente destaca “No Country for Old Men” é esse incômodo com a falta de sentido que se manifesta em todos os níveis: a violência sem sentido, os acontecimentos despropositados, a completa desarticulação do gênero ação/policial e dos cânones hollywoodianos.

                Em casa, da pilha de filmes alugados não se salvou muita coisa.  O que realmente me surpreendeu foi o filme de Philippe Barcinski, “Não por Acaso”.  A dinâmica dos corpos, o desejo de controle, o acaso, a imprevisibilidade, a fragilidade da vida e o valor dos encontros: são esses os temas do filme, muito bem articulados em duas figuras também emblemáticas: Ênio (Leonardo Medeiros) e Pedro (Rodrigo Santoro).  Como diz uma ótima resenha sobre o filme, Barcinski consegue fazer um cinema de simbolismo sem cair na mesmice.  O filme é bonito, humano e apresenta uma visão incrivelmente amorosa sobre a cidade de São Paulo, não apenas cenário, mas personagem que, através do caos de suas ruas e sinais de trânsito, nos traz sempre a surpresa e os encontros inesperados.  Para completar a maratona cinematográfica, algumas leituras que não têm nada a ver com nada, mas servem para me trazer de volta um passado não resolvido e uma saudade incômoda da literatura e dos temas religiosos.  Li quase todo o “Iluminismo Rosacruz”, de Frances Yates, onde se narra como uma invenção ficcional (a sociedade secreta dos Rosacruzes, imaginada por mentes férteis do século XVII) acaba se tornando realidade: um episodio curiosíssimo da história e extremamente atual em muitos sentidos.  Paralelamente retomei as leituras de “Philosophie de l’Alchime”, de François Bonnardel e “Robert Fludd”, de Serge Hutin.  De todas as formas de hermetismo ou gnose, a alquimia é, sem dúvida a mais poética.  Basta ver o ”Liber Mutus”, com suas belíssimas imagens, para entender a que me refiro.  As alegorias da alquimia, literariamente enunciadas, por exemplo, nas “Bodas Alquímicas de Christian Rosenkreutz”, compõem um repertório simbólico extraordinário e muitíssimo explorado por diversos escritores modernos (Rimbaud, Borges, Joyce).  Lendo esses textos, lembrei de alguns versos de Angelus Silesius: “dein Stein, Chemist, ist nichts, Der Eckstein, den ich mein’ its meine Goldtinktur, ist aller Weisen Stein” (“Tua pedra, alquimista, não é nada. A Pedra Angular de que falo é minha tintura áurea, a pedra de todos os sábios”), citados por Johann Valentin Andrea em seu Chymische Hochzeit Cristiani Rosenkreutz.  Em breve disponibilizo aqui o programa do curso que quero ensinar no Doutorado em Literatura Comparada da UERJ no segundo semestre de 2008.  O título: “Os Anjos na Janela do Ocidente: Literatura e Simbolismo Hermético” (uma referência, claro, ao belo título da obra de Gustav Meyrink, “Der Engel vom Westlichen Fenster”, inspirado pelo célebre cabalista elizabetano, John Dee).

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