Archive for January, 2008

Lenda

January 30th, 2008 | Category: navegar é preciso...

Existia no reino de Abdalmalik um diamante de beleza tão extraordinária que assombrava a imaginação dos súditos do suntuoso califado. Quem o contemplava, dizia-se, via abrirem-se as portas secretas do Islã e tinha um vislumbre da divindade, louvado seja o Onipotente. Apesar das muitas histórias e boatos, contudo, ninguém ainda havia conseguido realmente aproximar-se da pedra. Um dia, porém, começou a espalhar-se entre o povo o rumor de que o diamante já não se encontrava mais no palácio de Abdalmalik. À medida que tal notícia era carregada pelos ventos do deserto, o reino definhava e o ânimo dos guerreiros e filósofos do califa decaía. Até hoje, o califado aguarda pelo relato do retorno da glória de Abdalmalik. Diz-se que nesse dia as águas dos oásis serão mais doces e os pássaros cantarão louvores a Alah. Enquanto isso, resta aos súditos de Abdalmalik sonhar com o brilho que fere a noite com cristalina pureza.

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Da Série “Os Mais Belos Filmes que Ninguém Viu”

January 25th, 2008 | Category: cinema

Consegui finalmente capturar no Torrent um filme que só assisti na tevê a cabo em pedaços.  Mesmo assim, o filme não carregou inteiro e tive de assistir a uma cópia cheia de problemas e falhas de imagem.  “Songcatcher” é a história de uma professora universitária de música que, após ser preterida várias vezes para uma promoção no trabalho, decide visitar a irmã mais nova nas montanhas Apalache.  Nessa América rural e oculta dos inícios do século XX, ela descobre uma comunidade que preservou por séculos a fio, intocada, uma antiga tradição musical herdeira das baladas da Escócia e da Irlanda.  Não obstante os problemas de roteiro e os fios de argumento que não se desenvolvem, “Songcatcher” é um filme belíssimo.  As canções são incrivelmente lindas, apesar de extremamente simples (todas efetivamente baladas folclóricas antigas muito bem cantadas).  A cultura popular aparece ali como aquela força de poderosíssima beleza, mas, ao mesmo tempo, selvagem, ainda não domesticada pelas regras da civilização. Uma qualidade que encontramos em obras como o Martín Fierro (ainda que seu autor tenha sido um burguês).  Divertido também (apesar de pouco realista) é ver o contraste entre a atitude conservadora da educada professora ao descobrir o lesbianismo da irmã, fato tolerado com muito mais naturalidade pelo aldeão por quem ela se apaixona.  A ordem do mundo se inverte: o liberal age como conservador e o inculto, como um liberal.  Contudo, acho que a cena que mais me impactou é também a mais estranha do filme.  Após uma briga na festa promovida pela comunidade, o mau caráter da história (que previsivelmente trai seus laços locais para trabalhar para uma empresa de carvoaria) se levanta – com vários hematomas no rosto – e começa a entoar uma linda balada sobre a morte.  Essa cena é tão bela como hermética.  É quando a professora de música confessa estar absolutamente fascinada com esse mundo dos montanheses, um lugar onde a música é tão vital para a existência como o ar que se respira.  Ainda que com méritos menores, coloco “Songcatcher” em minha galeria dos mais belos filmes que ninguém viu, ao lado de “A Viagem do Capitão Tornado”, “Esposamante” e “Os Amantes do Círculo Polar”…

 

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Wake up, Donnie

January 15th, 2008 | Category: cinema, livros

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No ano de 2001, ainda costumava ir muito à Cobal de Botafogo e sempre visitava a Cavi, a mais revolucionária locadora de filmes de arte do Rio (a única que, então, fazia pirataria cultural). Naquela noite nublada e fria (disso me lembro), me chamou a atenção uma capa de vídeo muito intrigante. A imagem era de uma máscara estranha com orelhas de coelho, mas formada pelos rostos dos atores que participavam do filme. Embaixo, apenas o título numa tipologia gótica e esfumaçada. Levei para casa Donnie Darko sem ter ouvido uma única palavra sobre o filme. E fiquei estonteado com o que vi. Hoje, sete anos depois, lendo o livro de Geoff King (“Donnie Darko”, da excelente coleção britânica Cultographies), percebo que era essa, de fato, a única maneira adequada de lidar com uma estranheza como Donnie Darko. O livro de King é um estudo detalhado, inteligente e cuidadoso sobre um dos filmes que mais me impressionou na vida. Não é exatamente um filme de arte, mas tampouco é um filmão hollywoodiano. Os amigos que sabem da minha paixão por Visconti ficam surpresos que possa ter gostos tão diferentes e extremos. O encontro com Donnie Darko rendeu um trabalho publicado na revista Contracampo e um interesse pelas imagens híbridas, pelas questões de gênero e por um cinema da estranheza, temas tratados no livro de King. Recomendo o livro e o filme para todos os interessados nesses assuntos. E depois que assistirem ao filme, é obrigatório visitar o site, que é uma experiência à parte.


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O Estranho Caso do Dr. Mabuse…

January 04th, 2008 | Category: cinema, livros

Dando início à vida de um novo blog cujo título vem do clássico filme de Fritz Lang, nada mais apropriado que falar de cinema. Aliás, mais apropriado ainda é discutir temas relacionados ao próprio Lang. Estou lendo “The Strange Case of Dr. Mabuse”, de David Kalat - excelente estudo sobre toda a série de filmes realizados a partir do personagem Mabuse (os de Lang e os de outros). Além de extremamente bem escrito - lê-se como um romance -, o livro de Kalat é detalhista e desfaz diversos mitos sobre Lang (como seu suposto encontro com Goebbels, ministro de propaganda de Hitler), ao mesmo tempo que alimenta outros. Desse modo, nossa curiosidade é despertada para as fascinantes coincidências da história e da vida reais com o mundo da ficção. A primeira mulher de Lang morre sob circunstâncias misteriosas, e ele até hoje é considerado suspeito dessa morte. O título do livro de Kalat me inspirou a escrever o trabalho apresentado no encontro 2007 da Socine, “O Estranho caso do Dr. Mabuse e o Fantasma de Münsterberg”, no qual analiso as curiosas conexões entre hipnose, crime, espiritismo e teoria do cinema em Das Testament des Dr. Mabuse e na obra de Münsterberg. Há mais mistérios entre o céu e a terra… Quem quiser conhecer o livro, pode clicar aqui.

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Das erste Wort vom Mabuse

January 03rd, 2008 | Category: navegar é preciso...

Novo blog, novo site… o mundo jamais será o mesmo após o retorno de Mabuse!  Ouçam aqui a voz de Mabuse!

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