Archive for the 'a vida como ela é...' Category
Fé demais não cheira bem
É o tÃtulo de uma comédia excelente de 1992 com o Steve Martin. Pois é, acreditar é importante, mas acreditar cegamente é etsupidez. Finalmente a justiça se mexeu e temos um processo criminal correndo contra o Bispo Amassado. Não existe nada mais abominável do que explorar a fé (e ignorância) dos simples. Tomara que seja o começo do declÃnio desse império do mal. O crescimento desordenado e sem critério das igrejas evengélicas me assusta. Fico imaginando um futuro apocalÃptico como aquele do filme de Volker Schlondorff, “The Handmaid’s Tale”, baseado no romance de Margaret Atwood, no qual o mundo é dominado por facções de seitas fundamentalistas cristãs em perene conflito. Aliás, vale a pena assistir (pena que não saiu por aqui), já que os perigos que nos apresenta talvez estejam mais próximos do que podemos imaginar.

Disclosure (I)
Apparently there’s a whole bunch of people who hate my guts. It’s nice to be popular!
No commentsCrise VII (René Guénon II)
Ontem levei outro golpe, mas isso agora é irrelevante. Se não fosse por toda essa crise, não me ocuparia de tantas coisas esquecidas e deixadas para trás. Por razões inexplicáveis, reencontrei-me com um mundo que estava perdido e que merecia ser revisitado. Minha pergunta pelo verdadeiro sentido da vida acadêmica só encontrará resposta numa dimensão inteiramente diferente daquela em que a formulei nos últimos anos. De todo modo, a série de leituras heterodoxas e sem “utilidade” que tenho empreendido me trouxe uma satisfação inesperada. Curiosamente, apenas ontem, no meio da minha leitura de “René Guénon and the Future of the West” (Robin Waterfield) eu percebi que já havia lido o livro alguns anos antes. Esse esquecimento é significativo. A obra é de leitura fácil, interessante e rápida. Depois da primeira parte, com um modesto resumo da vida de Guénon, segue-se uma sintética (e por vezes superficial, mas didática) apresentação de seu pensamento. A escritura é competente e impessoal, como provavelmente Guénon teria apreciado. Sua vida, do ponto de vista exterior, poderia ser definida com uma expressiva palavra em inglês: “uneventful”. Mas, de fato, o que interessa num caso como o de Guénon é a interioridade, a “geografia do espÃrito”. Como outros personagens importantes de sua época, Guénon viveu uma existência aparentemente pacÃfica, mas recheada de revoluções interiores. No oposto disso (de modo não supreendente) estaria um caso como o de Aleister Crowley, que, como retratado na magnÃfica biografia de Lawrence Sutin, bem merecia ter suas aventuras convertidas em filme hollywoodiano. A tranquilidade da vida de Guénon constitui um reflexo exterior de sua perene busca pela unidade e pela superação das instabilidades do mundo fenomênico. Uma passagem da obra de Waterfield me chamou a atenção e a traduzo em seguida: “No Ocidente, a educação perdeu completamente seu caráter sagrado. Ela é ‘profana’ no senido literal da palavra, ‘fora da esfera do sagrado’; cortada de qualquer conexão com a verdade principial. Sua ambição é ‘prática’, seu conteúdo é materialista e utilitário, e sua audiência é universal. Toda técnica impessoal é ansiosamente empregada no sentido de reduzir o status do professor ao de um mero técnico e o do pupilo ao de um recipiente vazio a ser preenchido com o que quer que se julgue capaz de promover o progresso material” (p. 91). Nada de errado com a promoção do progresso material, mas os que já viveram numa sociedade vorazmente materialista, como os Estados Unidos da América, sabem da perturbação que essa forma de vida causa no espÃrito humano. Esse utilitarismo radical é a morte não apenas da arte, mas também da alma. Max Picard, filósofo esquecido, mÃstico de identidade dividida entre judaÃsmo e cristianismo, escreveu em 1948 que o silêncio devolve aos objetos a potência ôntica que lhes havia sido subtraÃda pelo mundo do pragmatismo (Die Welt des Schweigens). Era esse silêncio que gente como Guénon cultivava e que hoje está em falta na cultura contemporânea e na academia. Eu mesmo me havia esquecido dele. “Lingua Fundamentum Sancti Silentii”… E por isso decidi que a melhor resposta era calar-me.
No commentsMistérios Tijucanos…
Dá para acreditar que existe um lugar assim escondido na Tijuca, bem pertinho da Praça Saens Peña?




“There are more things in heaven and earth…”
2 commentsDe Volta
Após longo inverno, ressuscito o blog. A UERJ volta à s atividades, eu organizo meu escritório, ouço Charlotte Gainsbourg… Muitos projetos para 2009… a anunciar…
1 commentMediocricy
É incrÃvel o nÃvel de estupidez e cegueira que certos seres humanos são capazes de demonstrar.
1 commentMurphy’s Law
Confesso: hoje estava num clima extremamente anti-social. Mesmo assim, prefri ir para a rua e ver gente do que ficar em casa. Fui ao cinema ver “Homem de Ferro”. Ir ao cinema sozinho já não é o ideal. Mas como se não bastasse, na entrada do cinema vejo uma menina que conheço apenas de vista, mas que admiro (à distância) há algum tempo. Junto com ela, o namorado, muito, muito feio. Compro a entrada (lugares numerados) e me sento bem no meio da sala. Para completar meu infortúnio, num cinema com mais de 200 lugares, eles se sentam exatamente ao meu lado. Quer dizer, o sujeito senta do meu lado. Ouço os dois conversando e percebo que, além de esquisito, o cara também é um completo idiota. Do meu outro lado, um casal semelhante se senta (garota bonita, sujeito feio). Naturalmente, o outro sujeito também está no lugar adjacente e logo toma o braço da cadeira. Minutos depois, porém, percebem que cometeram um erro e mudam de lugar. Meu alÃvio foi apenas temporário.  Rapidamente aparece um velhinho que se move com o entusiasmo de um caracol e senta na cadeira recentemente abandonada, avisando que pode ser “que não fique até o fim do filme”. Penso: “será que o acaso tem prazer em nos provocar exatamente nos dias em que a gente não está para provocação?”.  Em horas como essa eu me pergunto: “Warum habe ich keine Freundin? Was ist los?”. Não, o universo não conspira a nosso favor. Há algo de terrivelmente errado com ele.
5 commentsDF e a Sociedade do Espetáculo
BrasÃlia ilustra bem a tese de Debord de que todas as relações sociais passaram a ser mediadas pelo espetáculo. Em BSB, tudo é farsa, encenação, simulacro. A cidade é uma abominação, e enquanto ela existir, como diria Borges, “ninguém no mundo poderá ser valoroso ou feliz” (Cf. El Inmortal). Em que outro lugar da terra um taxista nos perseguiria do restaurante até o hotel por termos ligado para a cooperativa e depois decidido tomar outro táxi? Dessa vez, para completar o horror da experiência, ficamos num hotelzinho tremendamente sem vergonha (os sacrifÃcios que não fazemos para economizar o dinheiro da Compós!). Tudo nos nossos aposentos era patético, especialmente a longa lista com instruções e regras que adornava a porta do quarto, e mais especialmente na sua versão em inglês: “O Breakfast is be served in the restaurant…The payment must be prompt, it is since requested…”. Entenderam? Nem eu… Sim, naquele território de terra vermelha, o mundo perde consistência, a realidade vacila. Nas entradas dos hotéis, figuras suspeitas tentam nos vender pedrinhas semipreciosas; nos restaurantes (em sua maioria deploráveis), a aparência e o preço da comida nos iludem a crer que iremos saborear um banquete. Em meio a esse espetáculo macabro, só nos salvou a visista ao La Creperie, um dos crepes mais deliciosos que comi em toda minha vida (Quadra 103 Sul) - maravilha descoberta graças à hospitalidade de Adalberto, que no último Intercom me levou lá. Bom, terça-feira, dia 29, vou falar no CCBB sobre Debord e a cultura das imagens digitais. BrasÃlia vai temperar minha fala…
No commentsEm Trânsito
Véspera da ida à BrasÃlia. A cidade não me anima, mas por outras razões encontro algum ânimo em retornar a esse deserto. BrasÃlia é um território simulacral em todos os sentidos possÃveis. Como tenho me sentido algo fantasmagórico, talvez dessa vez consiga ficar à vontade lá. Hoje finalizei o Ãndice onomástico e temático do livro (Silêncio de Deus, Silêncio dos Homens: Babel e a Sobrevivência do Sagrado na Literatura Moderna). Quero tentar lançar os dois - este e A Imagem Espectral: Comunicação, Cinema e Fantasmagoria Tecnológica - no encontro da Compós. Vamos ver se dá. O segundo é fruto de loucuras atuais, mas o primeiro me traz de volta preocupações passadas, obsessões há muito tempo esquecidas. É bom. Quero recordá-las. Quero voltar a escutar os silêncios de Deus.
1 commentEstética do Frio
Aqui faz frio. Os dias em Curitiba não foram tão bons quanto imaginei. A tristeza caminhou na ponta dos pés, sempre sorrateira e sempre atrás de mim. Mais que nunca me senti como estrangeiro, perdido em um paÃs exótico que não consigo entender. E eu constatei com clareza minha falta de jeito para viver. Quanto mais penso, menos sentido fazem o mundo e as pessoas. As ruas desertas serviram, assim, como sÃmbolo da aridez cultivada no interior da alma. Fernado Pessoa disse que “uma tristeza é como um lago morto dentro de nós”. Nestes dias, o tempo ganhou substância e peso intoleráveis. Eu existo em um limbo, sonhando com outros lugares onde nunca estive e com uma humanidade que nunca existiu. Eisamkeit…es gibt keine Menschheit mehr…
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