Archive for the 'cinema' Category

500 Dias com Ela

November 10th, 2009 | Category: cinema

500 Dias com Ela. Poderia defini-lo como uma comedia romântica sem romance. Ou melhor, ele tem romance, mas que acontece em momentos e formas que não satisfazem os padrões tradicionais do gênero. Nesse sentido, ele é profundamente realista. Não apenas porque não encontramos o tradicional final feliz ou os clichês típicos do repertório hollywoodiano, mas porque todos (ou quase todos) podemos nos identificar com o que acontece aos personagens. Certamente, não se trata de um daqueles filmes que premia nossa fantasia e recompensa nossas expectativas. Despretensionamente, ele pergunta junto conosco – e sem nenhuma resposta pronta – sobre esses grandes mistérios da vida que são o amor, o sofrimento, o cotidiano… Nas desventuras do protagonista eu enxerguei direitinho uma encenação do meu primeiro (e trágico, naturalmente) grande romance. O maior mistério para quem se apaixona talvez seja essa pergunta que o sujeito tacitamente se faz e que eu sempre me fazia: “como é possível que ela não sinta nem um parcela desse gigantesco amor que sinto por ela?”. Pois o apaixonado, na enormidade do seu sentimento, é incapaz de enxegar no coração do outro algo diferente do que se passa no seu. “Ela é um monstro cruel ou um robô?”, pergunta ele. Não existe outra alternativa na lógica do enamorado. E, mais tarde, não faz sentido algum a menina que não queria sequer namorar estar de aliança no dedo. Ora, o mundo não faz e nunca fará sentido. Quando uma mulher te diz: “eu nunca ficaria com aquele sujeito”, pode ter certeza de que ela vai acabar precisamente com aquele cara. E é pelo fato mesmo de que o dito de hoje é o não-dito de amanhã que não existe também amor eterno. Não que não possa existir relação amorosa para a vida toda, mas é que em cada momento se trata um amor “diferente”. Eu hoje amo aquela pessoa como amiga, amanhã, como mulher ou vice-versa. Eu hoje a amo apaixonadamente e amanhã, a amarei amorosamente. E assim a vida segue sem nenhuma certeza. Não existe casamento, não existe contrato que possa te dar a segurança de um companheiro eterno. Em um livro lido há muitos anos e em um outro mundo encontrei esta frase: “l’amour est l’invincible habitude d’une présence devenue nécessaire à notre cœur” (Ferdinand Alquié, Le Désir d’Éternité). O apaixonado não quer que o tempo passe, não quer que nada mude, não quer despedir-se da presença que preenche seu coração. Mas o tempo e os corações são caprichosos. “O Tempo é uma criança que joga o jogo de pedras…”. Bom, é certo que existe enorme empatia na figura do apaixonado não correspondido. Figura trágica por excelência, ele merece toda nossa simpatia por nunca ceder ao império da lógica e da razão. Ele enxerga o mundo de um modo absolutamente singular, numa forma que só existe para ele e no qual o outro, no fundo, não é mais que um coadjuvante. Pois encontra no outro apenas aquilo que ele mesmo põe lá. E se isso é patético, ridículo ou mesmo injusto para com o outro, não é menos belo ou verdadeiro. A verdade de um homem, quando vivida com tal convicção, é a verdade de todos os homens. 500 dias com ela não é um filme triste. É um filme honesto. No fim das contas, sua maior lição é que não importa o quanto saibamos que o destino não existe ou que tudo no mundo não passe de acaso. Pois é a persistente e ilógica idéia de um sentido final que sempre estaremos buscando. É essa idéia que move secretamente todos os esnobes do romantismo e todos os descrentes da transcendência. Não importa o quanto lutemos contra esses imponderáveis, eles sempre arrumam um jeito de virar o jogo.

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Nuit Noire

September 08th, 2009 | Category: cinema

Acabei de assistir à “Nuit Noire” (2004), de Olivier Smolders e fiquei totalmente estarrecido.  Há tempos não via imagens que me impressionassem tanto.  Foi interessante assisti-lo após ter visto “Anticristo”, do Trier, mas confesso que gostei mais do filme de Smolders.  Suas imagens, sua ambiência sombria e ao mesmo tempo de sedutora beleza, sua narrativa fragmentada e descaradamente surrealista me impregnaram.  Quem quiser assistir ao filme, basta procurar pelo Torrent (acho que está no Pirate Bay).  Vou estar semeando por alguns dias.  Enquanto isso, pode-se ler sobre ele neste excelente blog sobre (precisamente) filmes estranhos e inclassificáveis.

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Nixon X Frost

July 30th, 2009 | Category: cinema

Assisti ao filme. Excelente. Como toda história de azarão, ela cativa e conquista simpatia para o personagem David Frost. Mas acaba sendo generoso também com o Nixon, faz dele uma figura cativante, trágica, que merece nossa pena e perdão. Lembrei de um texto do Umberto Eco, lido há muitos anos atrás, sobre o Nixon: “Strategies of Lying”. Tudo a ver. Importante filme (e texto) para estudantes de jornalismo.

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Na Hora da Zona Morta, sua Mente pode destruir…

July 24th, 2009 | Category: cinema

Por razões de trabalho, tive de rever Scanners e The Dead Zone. O primeiro nunca me afetou muito, e talvez apenas agora eu tenha começado a perceber suas qualidades menos evidentes. The Dead Zone, por outro lado, é um filme que sempre me impressionou. Christopher Walken encarna com tanta perfeição o infeliz professor dotado de paranormalidade que seria impossível imaginar qualquer outra pessoa na pele do personagem. O momento que sempre retive na memória e que sempre me fascinou foi a primeira visão de Jonhnny, quando ele toma o lugar desse “espectador invisível” que assiste (curiosamente, “de dentro”) o incêndio na casa da enfermeira. Quando Walken vira o rosto de lado para a câmera e nós, espectadores, o vemos participando da cena (deitado na cama que pertence à filhinha da enfermeira), sua expressão de espanto é tão extraordinária e a espacialdade visual da situação é tão bem construída que nos sentimos penetrando nessa zona morta, nesse não-lugar misterioso que não é outro que o lugar mesmo do espectador. Lugar de quem está ao mesmo tempo dentro e fora, observando e sendo observado pelas imagens. Lugar de premonição, de uma visão que transcende o fluxo temporal e nos transporta para uma zona intemporal. Em Scanners, creio, o problema não é essencialmente o da visão (como em The Dead Zone), mas sim o da audição - como pretendo desenvolver no trabalho ainda a ser escrito. Em Scanners, foi curioso lembrar de Jennifer O’Neill, atriz de segunda dotada de incrível beleza (e nascida aqui, no Rio de Janeiro), pois em nenhum momento conseguia deixar de me recordar do magnífico filme de Visconti, L’Innocente, no qual ela faz o papel da amante (Teresa) de Giancarlo Giannini (Tullio), casado com a também lindíssima Laura Antonelli (Giuliana). Visconti gostava de usar atores hollywoodianos em decadência, como faz em Violência e Paixão ao usar o icônico Burt Lancaster no papel do protagonista sem nome (o professor). Na verdade, em Scanners, ao contrário do que acontece em The Dead Zone, todos os atores são incrivelmente inexpressivos. Talvez isso não seja coincidência. Afinal, o mundo dos Scanners é um oceano perturbador de infindáveis vozes sem rosto, o que os leva continuamente a duvidar de sua identidade. Não é casual o fato de que esse (o tema da identidade) seja um dos principais motivos do filme e que assistamos, no final, à troca de corpos entre os personagens antinômicos Cameron Vale e Darryl Revok. Apesar de apreciar A History of Violence e Eastern Promises (especialmente este último), sinto alguma saudade do Cronemberg de The Dead Zone. Ele era mais misterioso, estranho…e incômodo.

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Christopher Walken no calor da hora…

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Vampiromania

January 27th, 2009 | Category: cinema

A mitologia dos vampiros é sedutora e longeva como essas próprias criaturas. Poucos mitos são dotados de tanta pregnância e poder simbólico. Nos últimos tempos, eles parecem ter retornado à moda, com uma enxurrada de livros e filmes que se alimentam das histórias e mitologias dos sugadores de sangue. Acabei de baixar e assitir a primeira temporada de “True Blood”, a nova série premiada da HBO.

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Sim, a série é bacaninha, mas o maior interesse dela está nos detalhes. Falha em bastante coisa, descamba em alguns estereótipos, porém é bem sucedida em criar a ambiência apropriada a uma boa história de vampiros. O mais interessante é a premissa de True Blood. Os japoneses acabaram de desenvolver com perfeição uma imitação sintética do sangue humano e, em função disso, os vampiros decidiram finalmente se assumir (”to come out of the coffin”), revelando-se abertamente aos mortais e buscando uma participação efetiva na vida social. Eles têm uma ONG, defendem seus “constitutional rights” e querem viver entre os mortais levando uma vida (quase) humana…Bom, nem todos. Na verdade, às vezes temos a impressão de que o suposto mocinho da história (o vampiro Bill) é o único de sua espécie realmente interessado na assimilação (mas será mesmo?). A história se passa numa pequena cidade da Lousiana chamada Bon Temps. Lá vive Sookie Stackhouse, garçonete da mais popular lanchonete do local, a Merlottes. De certo modo, Sookie também uma criatura estranha, inteiramente fascinada pelos vampiros - em especial por Bill - e também dotada de poderes sobrehumanos: pode ler a mente de todas as pessoas com extrema facilidade (à exceção dos vampiros, naturalmente). Toda a primeira temporada gira em torno de uma série de assassinatos que abalam a pequena comunidade sulista. Todas as mulheres que tiveram relaçõe sexuais com vampiros (uma coqueluche no mundo de “True Blood”) são impiedosamente mortas uma a uma… já percebemos que nossa heroína Sookie irá correr constante perigo. Um outro conceito interessante da série é a noção de que o sangue dos vampiros é vendido como uma droga poderosíssima, capaz de amplificar os sentidos (e, claro, a libido) dos humanos. Evidentemente, trata-se de atividade muito perigosa para os traficantes de “V”(sangue de vampiro), como se pode imaginar. A série foi conceptualizada pelo mesmo criador do excelente “Six Feet Under”, com base na novela serial “The Southern Vampire Mysteries” (8 livros publicados), de Charlaine Harris. Não me despertou muito interesse a forma como a figura dos vampiros é usada para emblematizar as minorias e oferecer certa sobrevida ao discurso politicamente correto. Esse é um recurso antigo e foi utilizado com muito mais felicidade na excelente série “Alien Nation” (1989-1990). O que gostei em “True Blood” foi a forma imaginativa como o mundo de Bon Temps foi criado, o trabalho visual, a trilha sonora, a ambientação e, acima de tudo, a construção das personagens Sookie e Bill (otimamente interpretados por Anna Paquin e Stephen Moyer), seres complexos, atormentados e multifacetados. Além disso, é preciso assistir a cada episódio mais de uma vez, para captar as referências sutis que, mais tarde, irão colaborar para tecer a rica teia narrativa da série. A primeira temporada, pelo menos, é um jogo sutil de atenção de que espectador tem de participar o tempo todo.

Mas não é só de True Blood que (re)vivem os vampiros contemporâneos. Se o que buscamos é um filme estranho e realmente diferente sobre vampiros, então encontraremos isso em “Let the Right One in” (2008), pequena jóia do cinema (de horror?) norueguês que conta a história da difícil (mas visceral) amizade entre Oskar e Eli, duas crianças de 12 anos que sofrem da terrível patologia da inadequação social. Mas com um detalhe importante: Eli é uma vampira.

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Sombrio, envolvente, forte e bem interpretado, “Let the Right One In” consegue realmente trazer uma renovação ao gênero, que possui uma larga tradição de sucesso no cinema, de Nosferatu (1922), de Murnau, a Dracula (1931), de Tod Browning, ao belo The Hunger (1983), de Tony Scott. Outro filme pouquíssimo comentado, mas que vale a pena assistir, é o curioso “The Wisdom of Crocodiles” (1998), de Po-Chih Leong.

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Quem sabe para a próxima Socine meu trabalho não cairá também vítima dos poderes de sedução dos vampiros?

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Para quem quiser consultá-la, aqui vai uma interessante lista dos “70 melhores” filmes de vampiros de todos os tempos.

Também vale a pena ler este fascinante texto de Peter Weibel (em inglês e alemão) sobre fantasmas e vampiros.

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Nome Próprio

August 11th, 2008 | Category: cinema

Ele é forte, visceral, perturbador, angustiante, sombrio, divertido, poético.  Foi como percebi o fime do Murilo Salles, Nome Próprio, baseado em textos da blogueira Clarah Averbuck.  Leandra Leal, além de linda e apaixonante no filme, dá uma densidade extraordinária a uma personangem que já é exagero e profundidade em todos os sentidos.  Tudo nela é intensidade: a dor, a paixão, o texto.  Muitas gente se choca com a falta de limites, as bebedeiras, as orgias da Camila do filme.  Mas com toda sua loucura, ela põe em questão o estatuto da arte e do artista, que quero discutir no próximo post, evocando um outro ser estranho com quem também fiz contato recentemente; David Lynch…

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Os Fantasmas de Porto Alegre (Fantaspoa)

August 02nd, 2008 | Category: cinema

Resolvi reescrever inteiramente este post, que realmente estava muito xoxo.  A banca do concurso da UFRGS teve um saldo curioso: dez dias em Porto Alegre com chuva constante, frio e escuridão.  O clima, em alguns momentos angustiante, também me despertava um delicioso mood gótico, ideal para as experiências de estranheza.  Formou-se, assim, um perfeito cenário urbano para o Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, que procurei aproveitar ao máximo possível.  Com ingressos a apenas R$ 4,00 e um agradável (mas também irritante) sabor de amadorismo - as salas velhas e decadentes do Centro Cultural Mário Quintana, projetores multimídia sem foco -, tentei superar minhas experiências mais radicais de aficcionado.  Assisti a 10 filmes:

1. Man from Earth

2. Postcards from the Future

3. After the Apocalipse

4. Tales of the Fourth Dimension

5. The Fourth Dimension

6. Mindflesh

7. Spine Tingler

8. Corroboree

9. Confederate States of America

10. Blood Tea and Red String

Gostei particularmente de Mindflesh, Corroboree e Blood Tea and Red Strings, este último uma animação em stop motion lembrando muito os trabalhos dos irmãos Quay.  Também apreciei a ambiência visual e a labiríntica narrativa de The Fourth Dimension.  Mas os filmes que realmente guardei na memória foram documentários (um “fake”, um “sério”).  Confederate States of America  é um falso documentário sobre a história dos Estados Unidos da América, mas uma outra história: ele imagina uma situação em que os confederados tivessem ganho a guerra civil e a escravidão fosse praticada por aquelas terras até hoje.  Irônico e inteligente, é uma crítica ácida ao preconceito racial e ao fundamentalismo religioso que mancham o passado (e certamente, ainda, o presente) dos EUA.  Spine Tingler narra a trajetória do divertido e genial William Castle, o mitológico diretor de filmes B dos anos 50, que fez pérolas como The Tingler e produziu o clássico de Polanski, “O Bebê de Rosemary”.  Com suas estartégias mercadológicas e sua utilização de recursos “multimidiáticos” nas exibições de seus filmes, castle estava muito à frente do seu tempo.  Acima fiz uma leve crítica ao amadorismo do festival, mas na verdade tenho de reconhecer que este é um de seus elementos que mais me atrai. Isso sem falar no fascinante exercício de observação etnográfica do peculiar tipo de público que atrai.  Raridade e estranheza sempre me fascinaram, e é isso que me interessa em fenômenos culturais como o do Fantaspoa.  Só posso admirar os organizadores de tão difícil e corajosa empreitada.  Esse tipo de fenômeno cultural tem despertado cada vez mais minha atenção, e por isso multiplico minhas leituras de textos sobre o cinema “cult” e “trash”.  É realmente um público único, capaz de consumir produtos situados nas esferas mais extremas da vida cultural, do mais massivo ao mais erudito, digamos.  É com esse espírito que estou lendo Sleaze Artists, excelente coletânea editada por Jeffey Sconce e recomendada pela querida Simulation. Abaixo, o cartaz de Corroboree, estranhíssimo filme de Ben Hackworth, de imagerie poderosa (mas muito prejudicada pela qualidade da projeção) e narrativa elíptica.

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Teeth

May 25th, 2008 | Category: cinema

Já que falei de crueldade no último post, nada mais apropriado do que discutir este interessante, assustador, risível e criativo filme de Mitchell Lichtenstein (filho do famoso artista Roy Lichtensteion).  Peguei o filme no Azureus e o assisti hoje à noite, após ter voltado do cinema - onde fui ver Speed Racer (interessante contraste).  Teeth toma o arcaio mito da “vagina dentata” e o transforma num filme de horror, intencionalmente “trashy”, mas ao mesmo tempo delicado e singular (para uma excelente interpretação do filme, vejam o blog do Steven Shaviro).  Trata-se de um filme radicalmente libertário para as mulheres, ainda que, de forma sábia, não apresente nenhuma solução ou pacificação final.  A jovem protagonista, que descobre a terrível maldição de possuir uma “vagina dentata”, vai aos poucos tomando consciência da utilidade dessa singularidade anatômica, e acaba convertendo-a em um instrumento de “empowerment”.  Shaviro inteligentemente compara Teeth ao The Brood, do jovem Cronenberg.  Em ambos os filmes, fantasmas e fantasias psíquicas são convertidos em realidades corporais.  O medo da castração e o pânico diante dos mistérios femininos são brilhantemente encenados em um filme que consegue ser, ao mesmo tempo, irônico (consigo mesmo, inclusive) e profundamente sério, para não dizer perturbador.  Acho pouco provável que o filme chegue aqui, o que é uma pena.  No campo do cinema de horror, que tem andado tão banal e inexpressivo, ele representa um sopro de renovação.

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Ponto de Vista

March 25th, 2008 | Category: cinema

“Ponto de Vista” (Vantage Point) parte de um conceito interessante, mas não consegue realizá-lo com êxito.  A idéia do perspectivismo nasce na filosofia e hoje vem morar na cultura de massa.  Nietzsche foi, senão o primeiro, o mais decidido relativista: “não existem fatos, apenas interpretações”.  Hoje, Hollywood nos oferece uma versão digerida, facilitada e bastarda dessa noção.  O mesmo acontecimento, observado a partir de uma variedade de pontos de vista, revela uma instabilidade do fato que a atividade do jornalismo faria tudo para ocultar.  Pois o jornalismo trabalha com fatos… ou não?  O fato bruto não passaria de uma grande ilusão?  É isso talvez que “Ponto de Vista” coloca em discussão.  Mas não é casual o fato de que a imagem decisiva, aquela que oferece a resolução da charada, se encontre na fita de vídeo gravada pela equipe de televisão.  De algum modo, a mídia acaba reafirmando seu poder.  Ela diz: “observe com atenção… eu ainda guardo uma surpresa final.  Eu trago de volta o fato, registrado no meu olhar que tudo apreende e que produz verdade”.  Mas reconheçamos: essa coisa de o filme ficar repetindo, não sei quantas vezes, a mesma cena é um saco.  Não é que nem ver replay de jogo de futebol.  Enche a paciência do público, que no cinema mostrava sua insatisfação.  E qual é a moral final de todo essa pretensão de experimentalismo narrativo?  O presidente dos EUA é resgatado dos malignos terroristas por seu fiel escudeiro.  A incrível sofisticação da trama bolada pelos vilões é toda desfeita numa simples e tradicional perseguição de carro, onde o bem, claro, triunfa novamente.  Contra todo esse planejamento e intelectualismo do inimigo, o bom e velho “american muscle”.  E tudo termina em porradaria.  Essa é a única interpretação aceitável.  Ou existirão outras?

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Evoé Baco: Carnaval, Filmes e Alquimia

February 03rd, 2008 | Category: cinema, livros

Carnaval, para mim, é uma espécie de “retiro espiritual”.   Eu me tranco em casa, geralmente com uma pilha de livros e filmes.  Com a chuva e o telefone em silêncio quase que absoluto, este ano meu isolamento foi ainda mais radical.  Na sexta, saí e fui até Ipanema, assistir ao novo filme dos irmãos Cohen, “No Country for Old Men”.  Certos filmes incomodam a gente de uma maneira especial: você sai do cinema angustiado, talvez até insatisfeito, mas não consegue esquecer o que viu.  Aquele incômodo continua te perseguindo na rua e você se dá conta de que algo especial aconteceu.  É assim “No Country for Old Men”, filme absurdamente anti-hollywoodiano e anti-climático, a tal ponto, confesso, que chegou a me irritar.  Não é um filme para todos os espíritos, e demora algum tempo para ser digerido.  É um filme que te engana, que te leva a crer numa trama de ação policial com o bem finalmente suplantando o mal [ATENÇÃO: SE PRETENDE VER O FILME NÃO CURTE “SPOILERS”, NÃO LEIA O QUE VEM A SEGUIR].  De repente, tudo muda, de maneira até displicente, banal.  Só bem no final, percebemos que o simpático mocinho caipira não é o foco da atenção da história (aliás, os irmãos Cohen usam o mesmo personagem no divertido curta que apresentam em Chacun son Cinema).  No fundo é uma narrativa seca, sem moral, onde as principais figuras nem aparecem tanto, mas organizam toda a dinâmica narrativa.  Javier Barden e Tomy Lee Jones interpretam com maestria excepcional essas duas figuras, do velho xerife cansado com um mundo que não consegue entender e do pistoleiro psicopata cujo simples olhar gela de pavor suas vítimas.  Fotografia extraordinária, atuações extraordinárias e cinematografia de primeira, não há dúvida.  Mas o que realmente destaca “No Country for Old Men” é esse incômodo com a falta de sentido que se manifesta em todos os níveis: a violência sem sentido, os acontecimentos despropositados, a completa desarticulação do gênero ação/policial e dos cânones hollywoodianos.

                Em casa, da pilha de filmes alugados não se salvou muita coisa.  O que realmente me surpreendeu foi o filme de Philippe Barcinski, “Não por Acaso”.  A dinâmica dos corpos, o desejo de controle, o acaso, a imprevisibilidade, a fragilidade da vida e o valor dos encontros: são esses os temas do filme, muito bem articulados em duas figuras também emblemáticas: Ênio (Leonardo Medeiros) e Pedro (Rodrigo Santoro).  Como diz uma ótima resenha sobre o filme, Barcinski consegue fazer um cinema de simbolismo sem cair na mesmice.  O filme é bonito, humano e apresenta uma visão incrivelmente amorosa sobre a cidade de São Paulo, não apenas cenário, mas personagem que, através do caos de suas ruas e sinais de trânsito, nos traz sempre a surpresa e os encontros inesperados.  Para completar a maratona cinematográfica, algumas leituras que não têm nada a ver com nada, mas servem para me trazer de volta um passado não resolvido e uma saudade incômoda da literatura e dos temas religiosos.  Li quase todo o “Iluminismo Rosacruz”, de Frances Yates, onde se narra como uma invenção ficcional (a sociedade secreta dos Rosacruzes, imaginada por mentes férteis do século XVII) acaba se tornando realidade: um episodio curiosíssimo da história e extremamente atual em muitos sentidos.  Paralelamente retomei as leituras de “Philosophie de l’Alchime”, de François Bonnardel e “Robert Fludd”, de Serge Hutin.  De todas as formas de hermetismo ou gnose, a alquimia é, sem dúvida a mais poética.  Basta ver o ”Liber Mutus”, com suas belíssimas imagens, para entender a que me refiro.  As alegorias da alquimia, literariamente enunciadas, por exemplo, nas “Bodas Alquímicas de Christian Rosenkreutz”, compõem um repertório simbólico extraordinário e muitíssimo explorado por diversos escritores modernos (Rimbaud, Borges, Joyce).  Lendo esses textos, lembrei de alguns versos de Angelus Silesius: “dein Stein, Chemist, ist nichts, Der Eckstein, den ich mein’ its meine Goldtinktur, ist aller Weisen Stein” (“Tua pedra, alquimista, não é nada. A Pedra Angular de que falo é minha tintura áurea, a pedra de todos os sábios”), citados por Johann Valentin Andrea em seu Chymische Hochzeit Cristiani Rosenkreutz.  Em breve disponibilizo aqui o programa do curso que quero ensinar no Doutorado em Literatura Comparada da UERJ no segundo semestre de 2008.  O título: “Os Anjos na Janela do Ocidente: Literatura e Simbolismo Hermético” (uma referência, claro, ao belo título da obra de Gustav Meyrink, “Der Engel vom Westlichen Fenster”, inspirado pelo célebre cabalista elizabetano, John Dee).

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