Archive for the 'livros' Category

Crise VI (para onde ir?)

July 16th, 2009 | Category: livros

A única maneira de vencer uma crise é esgotando-a, levando-a ao máximo de suas conseqüências, atravessando-a de um lado ao outro. Esta semana, assim que terminar (pelo menos em parte) o semestre, pretendo parar tudo e fazer uma vasta revisão de percursos, rumos e objetivos. Hoje chegaram os livros que comprei pela Alapge: “La Philosophie de Simondon” (Pascal Chabot), “Penser l’Individuation: Simondon et la Philosophie de la Nature” (Jean-Hugues Barthélémy) e “Simondon ou l’Ecyclopedisme Génétique” (de novo Barthélémy). Simondon é um investimento por longo tempo adiado, e que agora - em meio à crise - entra na ordem do dia. Por um tempo não quero saber de obrigações formais ou cumprir exigências acadêmicas (Capes, CNPq). Se não houver prazer no pensamento, se não existir um sentido maior nos processos de investigação e ensino, o melhor é jogar tudo para o alto. Para quem quiser um competente resumo de algumas tese do Simondon, pode-se consultar esse excelente post no blog do Steven Shaviro. Até o início do próximo semestre, alguns rumos têm que ser definidos, algumas atitudes terão que ser tomadas…

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Fantasmas Midiáticos

July 26th, 2008 | Category: livros

Saiu o novo livro pela Ateliê Editorial.  Ficou bonito, e só posso agradecer ao pessoal da editora e ao amigo Osvando Morais pelo cuidado.  Em breve, postarei aqui a introdução da obra.

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Prazeres da Crueldade

May 24th, 2008 | Category: livros, navegar é preciso...

Comprei, num sebo de Curitiba, este livrinho alemão com historinhas do Hoffmann.  Os pais faziam as criancinhas lerem estas narrativas em versinhos com intuitos “educativos”.  Tremendamente cruéis para os parâmetros atuais, elas serviam para ensinar lições de moral ou educar naquilo que a criança não devia fazer.  Existe, por exemplo, a historinha da pobre “Paulinha”, que resolve brincar com fogos de artifício e acaba virando uma pilha de cinzas…

os versinhos finais são deliciosamente divertidos: “Und Minz und Maunz [nomes dos gatinhos da Paulinha], die kleinen, die sitzen da und weinen: ‘Miau!Mio!Miau!Mio! Wo sind die armen Eltern, wo?’  Und ihre Tränen fliessen wie’s Bächlein auf den Wiesen”.  Minha tradução livre: “E Minz e Maunz, os pequenos, ali sentados e chorando: ‘Miau, Mio, Miau, Mio!  Onde estão os pobres pais?  Onde?’  E suas lágrimas fluem como o riacho na pradaria”.  É surpreendente se dar conta da violência e do terror dessas historietas, ensinadas às crianças desde cedo entre os séculos XVIII e XIX.  Também é surpreendete lembrar que as versões originais dos contos da carochinha, como Chapeuzinho Vermelho, eram muito mais cruéis e violentas.  Contudo, toda essa violência não se refletia, necessariamente, em traumas ou psicoses na vida adulta.  Esta semana, após o retorno de Curitiba, fui entrevistado pela televisão duas vezes.  Na segunda, foi um jornal da tevê Futura sobre jovens e videogames.  E aí veio aquela tradicional e tola questão sobre os “aspectos negativos” dos games e sua violência no imaginário dos adolescentes.  Não, não são filmes, histórias ou videogames que geram violência na sociedade.  É a falta de modelos paternos adequados, inclusive na figura do estado, omissa, distante e, quando atuante, violenta.  Não é a ficção que deve assustar ou deseducar.  É a realidade.

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Lingua Fundamentum Sancti Silentii (ou, saindo do silêncio)

May 03rd, 2008 | Category: livros

Pois é, demorou 10 anos, mas finalmente ele está saindo.  Silêncio de Deus, Silêncio dos Homens: Babel e a Sobrevivência do Sagrado na Literatura Moderna é meu terceiro livro e deverá sair junto com o quarto, A Imagem Espectral: Comunicação, Cinema e Fantasmagoria Tecnológica (Ateliê Editorial).   De lá para cá, muita coisa mudou.  Algumas teses amadureceram, algumas crenças mudaram, mas ao longo de todos esses anos eu sempre quis ver esse texto publicado.  Ele sai na coleção “Imaginário Cotidiano”, com textos de apresentação do Muniz, Italo e Juremir.  Todos os textos foram muito bem escritos e muito me honra tê-los no livro.  Contudo, a apresentação escrita por Italo, amigo e orientador desta tese, me tocou de modo especial.  Como ela não poderá sair inteira no livro, agradeço ao Italo reproduzindo-a aqui.

“Silêncio de Deus, Silêncio dos homens é uma reflexão ambiciosa sobre modernidade cultural. Dono de impressionante erudição, rara não só na sua, mas em qualquer geração, Erick Felinto faz mais que um percurso pessoal pelas questões centrais da modernidade. Compõe um autêntico panorama histórico-filosófico, olhando a modernidade pelo avesso, definindo-a pelo viés do místico, do esotérico, do sagrado. Importante companheira de viagem nessa empreitada é uma leitura da obra do escritor argentino Jorge Luis Borges. Erick Felinto chegou à crítica da cultura pelo clássico caminho da crítica literária, a partir da combinação entre uma formação pós-graduada híbrida de Comunicação e Letras e uma espécie de auto-didatismo voraz que o fez incursionar pela Torah e pela Cabala, lembrando os marcos reflexivos de um Walter Benjamin. A resultante de tal combinatória se dá na clave do brilhantismo.            

Em contraste com um pós-modernismo de celebração, o pós-moderno de Erick Felinto pertence à vertente que, na crise de valores do fim do século 20, percebe a chance de dar um novo alento aos argumentos místicos e metafísicos, explorando contradições e paradoxos intrínsecos ao conceito dinâmico de modernidade. É profundo o desejo de espiritualidade que percorre as páginas do presente livro. Erick deixa de lado a ironia pós-metafísica de Borges e dele, resgata, reativa, a poética do Aleph. No entanto, ironia da história, ironia deste projeto intelectual que o leitor e a leitora têm agora em mãos: a face harmoniosa do deus não se mostra no final.

Resta o sabor de um desejo de Deus, mas, modernamente falando, Deus não está lá, Deus abandonou os homens. Era difícil para o Erick aceitar isso, quando escreveu este livro: antes que abandonássemos o deus, no tema moderno da morte de Deus prevalece a idéia de que foi Ele que nos abandonou primeiro. Nós, modernos e pós-modernos, somos órfãos à deriva, deixados à vivência desértica da história demasiadamente humana e da tecnologia sempre-igual. Temos aqui uma modalidade proto-histórica na evolução do pensamento do intelectual universitário Erick Felinto. O leitor e a leitora não se decepcionarão, se o que buscam é inteligência, aliada à erudição.”

 

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High Techné: Artes e Tecnologias do Pós-Humano

April 05th, 2008 | Category: livros, mestrado, universidade

High Techné 

O livro de R.L. Rutsky, High Techné: Art and Technology from the Machine Aesthetic to the Posthuman, é um dos trabalhos mais brilhantes que já li sobre as complexas relações entre estética e tecnologia na modernidade.  A tese central de Rutsky é que a modernidade sonhou com a possibilidade de reunir dois mundos em princípio mutuamente excludentes (e que ela mesma ajudou a separar): a racionalidade frgamentária e controladora da tecnologia e o poder mágico e totalizador da natureza.  Enquanto a ciência e a tecnologia se afirmaram como forças de análise, separação e controle - sempre em busca da instrumentalização da natureza -, o poder mágico da arte seria trazer de volta a unidade perdida, uma reconciliação com a natureza, uma retomada, pelo sujeito, de sua morada originária.  A ponte entre esses dois princípios foi encenada diversas vezes em nosso imaginário, por exemplo, em filmes expressionistas como Metrópolis, onde Freder atua como mediador entre o cérebro (seu pai, o racional controlador supremo da cidade) e os braços (os operários convertidos em autômatos).    É a repressão desses poderes femininos da natureza, sufocados pelo racionalismo patriarcal da modernidade, que converte a tecnlogia em uma entidade “desmorta” (undead), nem completamente viva nem inteiramente inanimada, uma monstruosidade como Frankenstein, feita de fragmentos de corpos mortos, feia e disforme.  O retorno do reprimido libera os pesadelos com a tecnologia animada por forças mágicas, a ameaçar a autonomia do sujeito cartesiano em sua soberania sobre o mundo.  Surge, então, uma alteridade monstruosa (essencialmente feminina ou ciborgue) que assombra o racionalismo moderno sem descanso.  Em um exercício de extraordinária proeza intelectual, Rutsky tece uma teia que agencia, em favor de suas teses, o pensamento de Heidegger, Freud, Benjamin e muitos outros modernos.  Heidegger denuncia, por exemplo, esse desvirtuamento moderno da essência da técnica, que em si nada tem de técnico (o paradoxo aparente dessa idéia é análogo à afirmativa de Benjamin de que nenhuma tradução artística é feita em benefício do leitor incapaz de compreender o original.  Cf. Die Aufgabe des Übersetzers).  A techné grega era poeisis, um vir-à-tona das coisas, um processo de criação cujo modelo principal era a força da physis, a natureza, capaz de se autogerar.   Mas a técnica moderna é uma forma de controle da natureza, tornando-a apenas uma reserva à disposição do homem.  É isso que a noção de “emolduramento” (Gestell) representa: um aprisionamento das forças livres e criativas da natureza por uma racionalidade técnica repressora e instrumental.  As divisões e cisões produzidas pela modernidade têm, no imaginário moderno, de ser resolvidas, têm de ser tornadas integrais (made whole).  Esse era, por exemplo, o apelo da “estética” nazista que prometia, na figura do líder e mediador (Mittler), a reintegração da racionalidade instrumental no paraíso perdido da unidade original.  Se jamais fomos modernos, como sugere Bruno Latour, é porque a própria modernidade já sonhava com as hibridações, com a reunião daquilo que a modernidade propunha separar radicalmente (natureza e tecnologia, magia e ciência, sujeito e objeto, espírito e coisa).  É nesse sentido que podemos entender essa frase de Rutsky: “Essa modernidade tecnológica é vista, ela mesma, como dividida entre uma tecnologia hiper-racional que reprime (ou mecaniza) o natural e o retorno dessa natureza reprimida na forma de uma tecnologia caótica e freqüentemente sobrenatural” (pg. 55).  O desejo reprimido ressurge na forma de uma força libidinal, destrutiva, inteiramente instintiva e sem controle.  A reflexão de Rutsky encontra aplicação especialmente rica no campo da cibercultura, manifestação dessa “high techné”, na qual a forma e o design superam o mito modernista da funcionalidade, dando origem a uma visão da tecnologia como pura aparência, como imagem.  Não é à toa que nossas tecnologias digitais são essencialmente tecnologias simulacrais - e desse modo colaborem para a construção de uma pós-modernidade que é, mais que tudo, um mundo de telas, imagens e de  um desejo de memória total em meio à perda progressiva da memória.  Rutsky é um crítico sutil, perfeita combinação, muito em voga nos dias de hoje, entre duas outras figuras aparentemente incompatíveis: o teórico e o consumidor da cultura pop.  É por isso que nenhum objeto hoje é indigno ou “pop” em demasia para ser apropriado pela academia.  Na hiper-memória pós-moderna já não existe escala de valores que separe Dante e Shakespeare de William Gibson ou Matrix.  E é por isso também que Rutsky não se acanha em usar a figura “pop” de Keanu Reeves para produzir uma brilhante reflexão sobre cinema e pós-modernidade (clique no título para ler o artigo Being Keanu).  High Techné é um livro para ser lido e relido, digerido com calma e com paciência chinesa (ou talvez tolerância).  Eu recomendo veementemente sua leitura, na esperança (possivelmente vã, eu confesso) de que mesmo as almas impacientes de hoje consigam, após engasgar por algumas páginas intrincadas, obter mesmo que uma pálida epifania intelectual.  Não há nada mais excitante que vislumbrar as tramas secretas do presente.  Compre aqui o livro de Rustky pela Amazon.

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O Bom Fim é apenas um Começo…

March 31st, 2008 | Category: livros

Sinto Porto Alegre como algo mais que uma cidade.  É uma experiência, um afeto, um estado de espírito, uma nostalgia.  Lá estive semana passada em infindáveis bancas e reuniões.   Meu amigo Juremir Machado da Silva, agora agraciado com o título de “chevalier de l’académie” (mais chique que isso, impossível) pelo governo francês, presenteou-me com seu último livro, “Antes do Túnel, uma História Pessoal do Bom Fim”.  Li o livro ainda em Porto Alegre, quase que de uma sentada só.  Creio que é um dos mais belos textos que Juremir já escreveu.  Ele tem uma qualidade rara, típica daquelas obras que nos transportam em sua narrativa para os cenários e situações que descreve.  O pequeno livro não somente nos apresenta o Bom Fim, ele o torna presente para nós, no sentido mais forte do termo.  Ele presentifica sensações, histórias e personagens.  Desse modo, aos poucos fui me sentindo envolvido em um passado que não vivi, mas do qual me aproprio com gosto.  Discípulo da sociologia do imaginário, de Maffesoli e desse grande e pouco lido mestre Gilbert Durand, Juremir afirma que o Bom Fim, mais que um bairro, é um “imaginário”.  Não há dúvida: estamos constantemente imersos no imaginário, e nossas memórias, nossas localidades de afeto, nossas paixões só existem enquanto mergulhadas na bacia semântica do mundus imaginalis (para usar a bela expressão de Henry Corbin).  O Bom Fim transcende, assim, a condição de locus físico e se converte em entidade metafísica.  Desse modo, não custa crer que exista um Bom Fim no topos ouranos, o mundo platônico das idéias.  Com os odores, imagens e habitantes desse lugar, vêm-nos a reboque um conjunto de noções e ideais hoje algo démodés: “revolução”, “liberdade”, “rebeldia” e “transgressão”.  “O Bom Fim, o nosso Bom Fim, não era apenas um bairro, uma história, uma geografia, mas era e é uma forma de ser no mundo”, escreve ele (pg. 77).  Meus lugares da imaginação não foram, sinto confessar, tão revolucionários.  Cresci em uma Tijuca conservadora e provinciana, vivi em uma Los Angeles pós-moderna e sem utopias, adotei uma Buenos Aires de livrarias e cafés elegantes, mas cada vez menos hístória.  Contudo, senti-me no direito de reivindicar para mim algo dessa Porto Alegre de uma juventude mais consciente e libertária, desse rescaldo daqueles “anos rebeldes” que foram os anos 80, quando todas as utopias já começavam a declinar.  Com extrema exatidão e uma dose de poesia, Emanuelle Severino comparou o aprendizado filosófico ao passeio do caminhante peripatético.  Para aprender filosofia, não basta ler os textos dos filósofos.  É necessário vivenciá-los, como se estivéssemos perambulando pelas ruas de uma cidade e aprendendo todos os seus becos, esquinas e segredos.  Juremir faz o percurso inverso: produz uma experiência filosófica a partir de uma exploração pela cidade.  Em uma das mais belas partes do texto, ele constrói uma outra geografia do bairro (como fazia Borges em sua Buenos Aires imaginada, aquela da quinta de “Triste-le-Roy” e do “Hôtel du Nord” ), sugerindo novos - e mais significativos - nomes para suas ruas: “rua do Ocidente”, “Travessa do Vermelho 23″, “Avenida do Brique”, “rua da Poesia”, “rua das cadeiras de Roda”, “rua da Lua” (pg. 75).  Eu caminhei por essas ruas, sempre saudoso de passados inexistentes e fantasmas que não eram meus.  Revi minha história e minhas memórias de cheiros e peregrinações noturnas, incluindo nela a alegria e a orgia dos bares do Bom Fim.  Esse é o poder do imaginário e da literatura, uma dádiva gentil de quem escreve a quem lê.  E, como dizia ainda outra vez o sábio Borges, “os bons leitores são cisnes mais raros que os bons escritores”.  Pois eles sabem imaginar.

post scriptum: leiam aqui os que assim desejarem um texto meu sobre cidades imaginadas e o ciberespaço (publicado em Prysthon, Angela. Imagens da Cidade: Espaços Urbanos na Comunicação e Cultura Contemporâneas. Porto Alegre: Sulina, 2006).

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Evoé Baco: Carnaval, Filmes e Alquimia

February 03rd, 2008 | Category: cinema, livros

Carnaval, para mim, é uma espécie de “retiro espiritual”.   Eu me tranco em casa, geralmente com uma pilha de livros e filmes.  Com a chuva e o telefone em silêncio quase que absoluto, este ano meu isolamento foi ainda mais radical.  Na sexta, saí e fui até Ipanema, assistir ao novo filme dos irmãos Cohen, “No Country for Old Men”.  Certos filmes incomodam a gente de uma maneira especial: você sai do cinema angustiado, talvez até insatisfeito, mas não consegue esquecer o que viu.  Aquele incômodo continua te perseguindo na rua e você se dá conta de que algo especial aconteceu.  É assim “No Country for Old Men”, filme absurdamente anti-hollywoodiano e anti-climático, a tal ponto, confesso, que chegou a me irritar.  Não é um filme para todos os espíritos, e demora algum tempo para ser digerido.  É um filme que te engana, que te leva a crer numa trama de ação policial com o bem finalmente suplantando o mal [ATENÇÃO: SE PRETENDE VER O FILME NÃO CURTE “SPOILERS”, NÃO LEIA O QUE VEM A SEGUIR].  De repente, tudo muda, de maneira até displicente, banal.  Só bem no final, percebemos que o simpático mocinho caipira não é o foco da atenção da história (aliás, os irmãos Cohen usam o mesmo personagem no divertido curta que apresentam em Chacun son Cinema).  No fundo é uma narrativa seca, sem moral, onde as principais figuras nem aparecem tanto, mas organizam toda a dinâmica narrativa.  Javier Barden e Tomy Lee Jones interpretam com maestria excepcional essas duas figuras, do velho xerife cansado com um mundo que não consegue entender e do pistoleiro psicopata cujo simples olhar gela de pavor suas vítimas.  Fotografia extraordinária, atuações extraordinárias e cinematografia de primeira, não há dúvida.  Mas o que realmente destaca “No Country for Old Men” é esse incômodo com a falta de sentido que se manifesta em todos os níveis: a violência sem sentido, os acontecimentos despropositados, a completa desarticulação do gênero ação/policial e dos cânones hollywoodianos.

                Em casa, da pilha de filmes alugados não se salvou muita coisa.  O que realmente me surpreendeu foi o filme de Philippe Barcinski, “Não por Acaso”.  A dinâmica dos corpos, o desejo de controle, o acaso, a imprevisibilidade, a fragilidade da vida e o valor dos encontros: são esses os temas do filme, muito bem articulados em duas figuras também emblemáticas: Ênio (Leonardo Medeiros) e Pedro (Rodrigo Santoro).  Como diz uma ótima resenha sobre o filme, Barcinski consegue fazer um cinema de simbolismo sem cair na mesmice.  O filme é bonito, humano e apresenta uma visão incrivelmente amorosa sobre a cidade de São Paulo, não apenas cenário, mas personagem que, através do caos de suas ruas e sinais de trânsito, nos traz sempre a surpresa e os encontros inesperados.  Para completar a maratona cinematográfica, algumas leituras que não têm nada a ver com nada, mas servem para me trazer de volta um passado não resolvido e uma saudade incômoda da literatura e dos temas religiosos.  Li quase todo o “Iluminismo Rosacruz”, de Frances Yates, onde se narra como uma invenção ficcional (a sociedade secreta dos Rosacruzes, imaginada por mentes férteis do século XVII) acaba se tornando realidade: um episodio curiosíssimo da história e extremamente atual em muitos sentidos.  Paralelamente retomei as leituras de “Philosophie de l’Alchime”, de François Bonnardel e “Robert Fludd”, de Serge Hutin.  De todas as formas de hermetismo ou gnose, a alquimia é, sem dúvida a mais poética.  Basta ver o ”Liber Mutus”, com suas belíssimas imagens, para entender a que me refiro.  As alegorias da alquimia, literariamente enunciadas, por exemplo, nas “Bodas Alquímicas de Christian Rosenkreutz”, compõem um repertório simbólico extraordinário e muitíssimo explorado por diversos escritores modernos (Rimbaud, Borges, Joyce).  Lendo esses textos, lembrei de alguns versos de Angelus Silesius: “dein Stein, Chemist, ist nichts, Der Eckstein, den ich mein’ its meine Goldtinktur, ist aller Weisen Stein” (“Tua pedra, alquimista, não é nada. A Pedra Angular de que falo é minha tintura áurea, a pedra de todos os sábios”), citados por Johann Valentin Andrea em seu Chymische Hochzeit Cristiani Rosenkreutz.  Em breve disponibilizo aqui o programa do curso que quero ensinar no Doutorado em Literatura Comparada da UERJ no segundo semestre de 2008.  O título: “Os Anjos na Janela do Ocidente: Literatura e Simbolismo Hermético” (uma referência, claro, ao belo título da obra de Gustav Meyrink, “Der Engel vom Westlichen Fenster”, inspirado pelo célebre cabalista elizabetano, John Dee).

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Wake up, Donnie

January 15th, 2008 | Category: cinema, livros

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No ano de 2001, ainda costumava ir muito à Cobal de Botafogo e sempre visitava a Cavi, a mais revolucionária locadora de filmes de arte do Rio (a única que, então, fazia pirataria cultural). Naquela noite nublada e fria (disso me lembro), me chamou a atenção uma capa de vídeo muito intrigante. A imagem era de uma máscara estranha com orelhas de coelho, mas formada pelos rostos dos atores que participavam do filme. Embaixo, apenas o título numa tipologia gótica e esfumaçada. Levei para casa Donnie Darko sem ter ouvido uma única palavra sobre o filme. E fiquei estonteado com o que vi. Hoje, sete anos depois, lendo o livro de Geoff King (“Donnie Darko”, da excelente coleção britânica Cultographies), percebo que era essa, de fato, a única maneira adequada de lidar com uma estranheza como Donnie Darko. O livro de King é um estudo detalhado, inteligente e cuidadoso sobre um dos filmes que mais me impressionou na vida. Não é exatamente um filme de arte, mas tampouco é um filmão hollywoodiano. Os amigos que sabem da minha paixão por Visconti ficam surpresos que possa ter gostos tão diferentes e extremos. O encontro com Donnie Darko rendeu um trabalho publicado na revista Contracampo e um interesse pelas imagens híbridas, pelas questões de gênero e por um cinema da estranheza, temas tratados no livro de King. Recomendo o livro e o filme para todos os interessados nesses assuntos. E depois que assistirem ao filme, é obrigatório visitar o site, que é uma experiência à parte.


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O Estranho Caso do Dr. Mabuse…

January 04th, 2008 | Category: cinema, livros

Dando início à vida de um novo blog cujo título vem do clássico filme de Fritz Lang, nada mais apropriado que falar de cinema. Aliás, mais apropriado ainda é discutir temas relacionados ao próprio Lang. Estou lendo “The Strange Case of Dr. Mabuse”, de David Kalat - excelente estudo sobre toda a série de filmes realizados a partir do personagem Mabuse (os de Lang e os de outros). Além de extremamente bem escrito - lê-se como um romance -, o livro de Kalat é detalhista e desfaz diversos mitos sobre Lang (como seu suposto encontro com Goebbels, ministro de propaganda de Hitler), ao mesmo tempo que alimenta outros. Desse modo, nossa curiosidade é despertada para as fascinantes coincidências da história e da vida reais com o mundo da ficção. A primeira mulher de Lang morre sob circunstâncias misteriosas, e ele até hoje é considerado suspeito dessa morte. O título do livro de Kalat me inspirou a escrever o trabalho apresentado no encontro 2007 da Socine, “O Estranho caso do Dr. Mabuse e o Fantasma de Münsterberg”, no qual analiso as curiosas conexões entre hipnose, crime, espiritismo e teoria do cinema em Das Testament des Dr. Mabuse e na obra de Münsterberg. Há mais mistérios entre o céu e a terra… Quem quiser conhecer o livro, pode clicar aqui.

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