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High Techné: Artes e Tecnologias do Pós-Humano

April 05th, 2008 | Category: livros, mestrado, universidade

High Techné 

O livro de R.L. Rutsky, High Techné: Art and Technology from the Machine Aesthetic to the Posthuman, é um dos trabalhos mais brilhantes que já li sobre as complexas relações entre estética e tecnologia na modernidade.  A tese central de Rutsky é que a modernidade sonhou com a possibilidade de reunir dois mundos em princípio mutuamente excludentes (e que ela mesma ajudou a separar): a racionalidade frgamentária e controladora da tecnologia e o poder mágico e totalizador da natureza.  Enquanto a ciência e a tecnologia se afirmaram como forças de análise, separação e controle - sempre em busca da instrumentalização da natureza -, o poder mágico da arte seria trazer de volta a unidade perdida, uma reconciliação com a natureza, uma retomada, pelo sujeito, de sua morada originária.  A ponte entre esses dois princípios foi encenada diversas vezes em nosso imaginário, por exemplo, em filmes expressionistas como Metrópolis, onde Freder atua como mediador entre o cérebro (seu pai, o racional controlador supremo da cidade) e os braços (os operários convertidos em autômatos).    É a repressão desses poderes femininos da natureza, sufocados pelo racionalismo patriarcal da modernidade, que converte a tecnlogia em uma entidade “desmorta” (undead), nem completamente viva nem inteiramente inanimada, uma monstruosidade como Frankenstein, feita de fragmentos de corpos mortos, feia e disforme.  O retorno do reprimido libera os pesadelos com a tecnologia animada por forças mágicas, a ameaçar a autonomia do sujeito cartesiano em sua soberania sobre o mundo.  Surge, então, uma alteridade monstruosa (essencialmente feminina ou ciborgue) que assombra o racionalismo moderno sem descanso.  Em um exercício de extraordinária proeza intelectual, Rutsky tece uma teia que agencia, em favor de suas teses, o pensamento de Heidegger, Freud, Benjamin e muitos outros modernos.  Heidegger denuncia, por exemplo, esse desvirtuamento moderno da essência da técnica, que em si nada tem de técnico (o paradoxo aparente dessa idéia é análogo à afirmativa de Benjamin de que nenhuma tradução artística é feita em benefício do leitor incapaz de compreender o original.  Cf. Die Aufgabe des Übersetzers).  A techné grega era poeisis, um vir-à-tona das coisas, um processo de criação cujo modelo principal era a força da physis, a natureza, capaz de se autogerar.   Mas a técnica moderna é uma forma de controle da natureza, tornando-a apenas uma reserva à disposição do homem.  É isso que a noção de “emolduramento” (Gestell) representa: um aprisionamento das forças livres e criativas da natureza por uma racionalidade técnica repressora e instrumental.  As divisões e cisões produzidas pela modernidade têm, no imaginário moderno, de ser resolvidas, têm de ser tornadas integrais (made whole).  Esse era, por exemplo, o apelo da “estética” nazista que prometia, na figura do líder e mediador (Mittler), a reintegração da racionalidade instrumental no paraíso perdido da unidade original.  Se jamais fomos modernos, como sugere Bruno Latour, é porque a própria modernidade já sonhava com as hibridações, com a reunião daquilo que a modernidade propunha separar radicalmente (natureza e tecnologia, magia e ciência, sujeito e objeto, espírito e coisa).  É nesse sentido que podemos entender essa frase de Rutsky: “Essa modernidade tecnológica é vista, ela mesma, como dividida entre uma tecnologia hiper-racional que reprime (ou mecaniza) o natural e o retorno dessa natureza reprimida na forma de uma tecnologia caótica e freqüentemente sobrenatural” (pg. 55).  O desejo reprimido ressurge na forma de uma força libidinal, destrutiva, inteiramente instintiva e sem controle.  A reflexão de Rutsky encontra aplicação especialmente rica no campo da cibercultura, manifestação dessa “high techné”, na qual a forma e o design superam o mito modernista da funcionalidade, dando origem a uma visão da tecnologia como pura aparência, como imagem.  Não é à toa que nossas tecnologias digitais são essencialmente tecnologias simulacrais - e desse modo colaborem para a construção de uma pós-modernidade que é, mais que tudo, um mundo de telas, imagens e de  um desejo de memória total em meio à perda progressiva da memória.  Rutsky é um crítico sutil, perfeita combinação, muito em voga nos dias de hoje, entre duas outras figuras aparentemente incompatíveis: o teórico e o consumidor da cultura pop.  É por isso que nenhum objeto hoje é indigno ou “pop” em demasia para ser apropriado pela academia.  Na hiper-memória pós-moderna já não existe escala de valores que separe Dante e Shakespeare de William Gibson ou Matrix.  E é por isso também que Rutsky não se acanha em usar a figura “pop” de Keanu Reeves para produzir uma brilhante reflexão sobre cinema e pós-modernidade (clique no título para ler o artigo Being Keanu).  High Techné é um livro para ser lido e relido, digerido com calma e com paciência chinesa (ou talvez tolerância).  Eu recomendo veementemente sua leitura, na esperança (possivelmente vã, eu confesso) de que mesmo as almas impacientes de hoje consigam, após engasgar por algumas páginas intrincadas, obter mesmo que uma pálida epifania intelectual.  Não há nada mais excitante que vislumbrar as tramas secretas do presente.  Compre aqui o livro de Rustky pela Amazon.

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