Aluno é ser estranho, sempre. Mas em semana de provas, eles ficam mais estranhos ainda.
Em toda, absolutamente toda sala que eu entro, invariavelmente terá um infeliz que vai fazer a clássica piadinha: “ssora, a prova é de consulta?” ou “em dupla, né, pssora?”. Aí você tem que rir, fazer algum comentário do tipo “valeu a tentativa” e continuar calma.
A prova. Eu nunca, jamais, em tempo algum tiro dúvida de qualquer natureza na hora da prova. Sim, eu sou exceção. Sim, eu sou má. Não, eles não se conformam e continuam fazendo perguntas. Não importa se você escreveu lá em cima: que as questões podem ser respondidas em qualquer ordem, desde que se indique o número da questão; que a prova precisa ser feita à caneta ou qualquer outra instrução. Eles não lêem. Se lêem, deletam. Ou então é uma espécie de TOC. O infeliz precisa perguntar, se não ele acha que algo de muito ruim vai acontecer com ele: “fssora, pode responder em qualquer ordem?”. No último segundo tem gente entregando a porra da prova a lápis. Esses dias um próprio colega deu esporro no cara: “porra, moleque, desde o primeiro período você faz isso!”.
Pior é quando começa: “professora, a senhora gosta mais de provas objetivas e diretas ou que a gente escreva muito?”. “Gosto de prova calada”, costumo responder. “Pssora, aqui você vai querer que eu explique?”. “Vou querer não precisar responder esse tipo de pergunta”. “Professora, aqui onde você pede pra explicar as três características, pode só citar ou precisa explicar?”. Em geral eu fico parada olhando pra cara do moleque e digo: “o que você acha?”. Sim, porque o aluno sempre sabe o que é pra fazer. Mas ele precisa perguntar. Aí eu sempre corto e falo: “é o que está escrito”. Ô dificuldade!
E o tipo questionador? “Professora, essa questão está mal formulada”. Nem por um segundo o gênio pensa que o problema pode ser dele, né? Tem o tipo que passa a prova olhando pra você, talvez na tentativa de absorver qualquer tipo de informação por osmose ou de ler a sua mente.
Tem também o tipo reflexivo. Aquele que resolve refletir sobre o semestre na hora da sua prova: “ai, por que eu não fiz o trabalho? Por que eu fui deixar pra fazer segunda chamada?”. Tem ainda o tipo completamente perdido: “professora, essa prova é a matéria toda?”. “Tá valendo quanto, professora?”. “Quanto eu preciso tirar pra passar direto, professora?”.
Esse semestre ainda não aconteceu, mas quando eu dava aulas na Esculacho tinha direto bilhetinho na prova: “Professora, preciso de 9,5 pra passar direto”. Quase que eu respondia: “e eu preciso de um emprego digno que me poupe de passar por isso”.
Na hora da correção é pior ainda. Tem o tipo medroso, que já aponta na porta da sala falando: “zero, né, pssora? Nossa, fui muito mal…hãn? Dez?”. Tem o iludido: “Mas cooooomo que eu tirei 0,5, professora? Eu estudei muito!!!!”. O aluno acha que pelo simples fato dele ter estudado muito – quero dizer, o que ele acha que seja estudar muito, que, no caso, deve ser ler o texto inteiro uma vez – necessariamente ele tem que tirar uma boa nota.
Ou então, em questões discursivas, a resposta era pêra, ele respondeu laranja, você está mostrando pra ele que pêra não pode ser laranja e ele quer te convencer de que laranja é pêra, “só que com as minhas palavras, professora”. Eles sequer conseguem enxergar o erro. Não conseguem mesmo. “Mas, professora, eu sabia isso, tava tudo aqui dentro da minha cabeça!”. “Ok, mas eu não corrijo pensamento!”. “Não, professora, não foi isso que eu quis dizer, a senhora entendeu errado”. “Puxa, obrigada por me avisar, quase achei que você que não tinha conseguido se expressar! Olha que coisa!”. Acham que correção de prova é barganha: “pô, pssora, dá um pontinho aí!”. E eu lá sou médica ou enfermeira pra dar ponto? Olha que eu nunca reprovo nem deixo ninguém de final por 0,5 ponto.
Tem certas provas que é que nem aquele caça-palavras que sai naquelas revistinhas Coquetel. Você enxerga um monte de letras desconjuntadas vagando, daí vai achando frases que tenha a ver com a matéria e atribuindo valor a elas. Sim, porque se eu for cobrar uma resposta coerente e lógica eu aprovo um ou dois por turma.
E quando é múltipla escolha e o desgraçado até hoje não aprendeu que só pode marcar UMA? Eu ainda boto bem grande, ou em negrito: A ALTERNATIVA CORRETA. Se fosse mais de uma eu colocaria A(S) ALTERNATIVA(S) CORRETA(S). E quando você fala são características bla bla bla, MENOS. Ontem a garota acertou tudo e errou uma dessas porque eu botei MENOS (0,5 ponto). Marcou todas as certas e só deixou a certa sem marcar. Diz ela que achou que era “menos 0,5 ponto”. Menos meio ponto aonde, crânio?
Aí a pessoa faz a prova, te dá e diz (invariavelmente, 9 entre dez alunos dizem isso): “pssora, corrige com carinho, ta?”. Costumo responder: “se eu tiver mais carinho com a sua prova eu caso com ela”. Sim, porque, volto a dizer, se eu fosse corrigir do jeito que eu acho que deveria ser corrigida não sobrava um.
O melhor realmente é só fazer prova de múltipla escolha. Dá mais trabalho pra montar, mas dá menos na hora de corrigir e me poupa aborrecimentos. O problema é que as faculdades sempre pedem pra mesclar com questões discursivas. Mas vou cada vez mais atribuir menos ponto pras discursivas e colocá-las cada vez mais retardadas, impossíveis de contestação. Sim, porque aprender a escrever eles não vão.
Depois não se entende porque ninguém passa em concurso público e cada vez mais sobram vagas que não são preenchidas, embora o número de candidatos só aumente. Depois não entendem porque quase lincham uma garota por usar um vestido curto. A ignorância é a mãe de todos os males. E pior do que a ignorância é a ignorância aliada a arrogância. Porque ser ignorante não é problema. O problema é não estar nem aí. A verdadeira burrice é não conseguir ver a própria ignorância. E só quem tá dentro ou já esteve dentro de uma universidade particular sabe do que eu estou falando.
