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Sublime Sucubus! (Ser professor é padecer no paraíso II)

December 04th, 2009 | Category: universidade

O post abaixo eu peguei do divertidíssimo blog da Carrie.  Quem quiser acompanhá-la (é uma blogueira de sucesso, ao contrário deste que vos escreve), cheque em http://www.sublimesucubus.blogspot.com.  Achei que tinha muito a ver com meu post anterior.  Espero que ela aprecie a homenagem!

Alunos e suas provas

Aluno é ser estranho, sempre. Mas em semana de provas, eles ficam mais estranhos ainda.

Em toda, absolutamente toda sala que eu entro, invariavelmente terá um infeliz que vai fazer a clássica piadinha: “ssora, a prova é de consulta?” ou “em dupla, né, pssora?”. Aí você tem que rir, fazer algum comentário do tipo “valeu a tentativa” e continuar calma.

A prova. Eu nunca, jamais, em tempo algum tiro dúvida de qualquer natureza na hora da prova. Sim, eu sou exceção. Sim, eu sou má. Não, eles não se conformam e continuam fazendo perguntas. Não importa se você escreveu lá em cima: que as questões podem ser respondidas em qualquer ordem, desde que se indique o número da questão; que a prova precisa ser feita à caneta ou qualquer outra instrução. Eles não lêem. Se lêem, deletam. Ou então é uma espécie de TOC. O infeliz precisa perguntar, se não ele acha que algo de muito ruim vai acontecer com ele: “fssora, pode responder em qualquer ordem?”. No último segundo tem gente entregando a porra da prova a lápis. Esses dias um próprio colega deu esporro no cara: “porra, moleque, desde o primeiro período você faz isso!”.

Pior é quando começa: “professora, a senhora gosta mais de provas objetivas e diretas ou que a gente escreva muito?”. “Gosto de prova calada”, costumo responder. “Pssora, aqui você vai querer que eu explique?”. “Vou querer não precisar responder esse tipo de pergunta”. “Professora, aqui onde você pede pra explicar as três características, pode só citar ou precisa explicar?”. Em geral eu fico parada olhando pra cara do moleque e digo: “o que você acha?”. Sim, porque o aluno sempre sabe o que é pra fazer. Mas ele precisa perguntar. Aí eu sempre corto e falo: “é o que está escrito”. Ô dificuldade!

E o tipo questionador? “Professora, essa questão está mal formulada”. Nem por um segundo o gênio pensa que o problema pode ser dele, né? Tem o tipo que passa a prova olhando pra você, talvez na tentativa de absorver qualquer tipo de informação por osmose ou de ler a sua mente.

Tem também o tipo reflexivo. Aquele que resolve refletir sobre o semestre na hora da sua prova: “ai, por que eu não fiz o trabalho? Por que eu fui deixar pra fazer segunda chamada?”. Tem ainda o tipo completamente perdido: “professora, essa prova é a matéria toda?”. “Tá valendo quanto, professora?”. “Quanto eu preciso tirar pra passar direto, professora?”.

Esse semestre ainda não aconteceu, mas quando eu dava aulas na Esculacho tinha direto bilhetinho na prova: “Professora, preciso de 9,5 pra passar direto”. Quase que eu respondia: “e eu preciso de um emprego digno que me poupe de passar por isso”.

Na hora da correção é pior ainda. Tem o tipo medroso, que já aponta na porta da sala falando: “zero, né, pssora? Nossa, fui muito mal…hãn? Dez?”. Tem o iludido: “Mas cooooomo que eu tirei 0,5, professora? Eu estudei muito!!!!”. O aluno acha que pelo simples fato dele ter estudado muito – quero dizer, o que ele acha que seja estudar muito, que, no caso, deve ser ler o texto inteiro uma vez – necessariamente ele tem que tirar uma boa nota.

Ou então, em questões discursivas, a resposta era pêra, ele respondeu laranja, você está mostrando pra ele que pêra não pode ser laranja e ele quer te convencer de que laranja é pêra, “só que com as minhas palavras, professora”. Eles sequer conseguem enxergar o erro. Não conseguem mesmo. “Mas, professora, eu sabia isso, tava tudo aqui dentro da minha cabeça!”. “Ok, mas eu não corrijo pensamento!”. “Não, professora, não foi isso que eu quis dizer, a senhora entendeu errado”. “Puxa, obrigada por me avisar, quase achei que você que não tinha conseguido se expressar! Olha que coisa!”. Acham que correção de prova é barganha: “pô, pssora, dá um pontinho aí!”. E eu lá sou médica ou enfermeira pra dar ponto? Olha que eu nunca reprovo nem deixo ninguém de final por 0,5 ponto.

Tem certas provas que é que nem aquele caça-palavras que sai naquelas revistinhas Coquetel. Você enxerga um monte de letras desconjuntadas vagando, daí vai achando frases que tenha a ver com a matéria e atribuindo valor a elas. Sim, porque se eu for cobrar uma resposta coerente e lógica eu aprovo um ou dois por turma.

E quando é múltipla escolha e o desgraçado até hoje não aprendeu que só pode marcar UMA? Eu ainda boto bem grande, ou em negrito: A ALTERNATIVA CORRETA. Se fosse mais de uma eu colocaria A(S) ALTERNATIVA(S) CORRETA(S). E quando você fala são características bla bla bla, MENOS. Ontem a garota acertou tudo e errou uma dessas porque eu botei MENOS (0,5 ponto). Marcou todas as certas e só deixou a certa sem marcar. Diz ela que achou que era “menos 0,5 ponto”. Menos meio ponto aonde, crânio?

Aí a pessoa faz a prova, te dá e diz (invariavelmente, 9 entre dez alunos dizem isso): “pssora, corrige com carinho, ta?”. Costumo responder: “se eu tiver mais carinho com a sua prova eu caso com ela”. Sim, porque, volto a dizer, se eu fosse corrigir do jeito que eu acho que deveria ser corrigida não sobrava um.

O melhor realmente é só fazer prova de múltipla escolha. Dá mais trabalho pra montar, mas dá menos na hora de corrigir e me poupa aborrecimentos. O problema é que as faculdades sempre pedem pra mesclar com questões discursivas. Mas vou cada vez mais atribuir menos ponto pras discursivas e colocá-las cada vez mais retardadas, impossíveis de contestação. Sim, porque aprender a escrever eles não vão.

Depois não se entende porque ninguém passa em concurso público e cada vez mais sobram vagas que não são preenchidas, embora o número de candidatos só aumente. Depois não entendem porque quase lincham uma garota por usar um vestido curto. A ignorância é a mãe de todos os males. E pior do que a ignorância é a ignorância aliada a arrogância. Porque ser ignorante não é problema. O problema é não estar nem aí. A verdadeira burrice é não conseguir ver a própria ignorância. E só quem tá dentro ou já esteve dentro de uma universidade particular sabe do que eu estou falando.

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Crise X: “Ser professor é padecer no paraíso…”

November 28th, 2009 | Category: universidade

“Anseio por uma grande explosão barroca e neo-romântica, gostaria que as pessoas tivessem consciência da necessidade de enfrentar profundamente o desafio do mistério que paira paciente sobre o mundo dos homens e que se oferece gratuito à nossa exploração” (A. Alçada Baptista, Peregrinação Interior)

Preciso começar admitindo que sou mesmo um extraterrestre. Quando 90% do planeta caminha numa direção e você faz parte dos 10% que vão para o lado oposto, é porque provavelmente você está errado. E o pior é que, além de errado eu também estou ficando chato. Reclamar demais é um traço típico dos chatos, e eu reconheço que tenho reclamado muito ultimamente. Mas existe também uma função terapêutica no gesto de reclamar. E escrever sobre o que te inquieta, mesmo que ninguém mais partilhe da sua inquietação, é extremamente relaxante. A meia dúzia de pessoas que acompanha este blog sabe que já há algum tempo venho vivendo uma espécie de crise profissional/identitária. Este ano foi particularmente difícil, pois tem se tornado cada vez mais complicado encontrar sentido e rumo no que faço. É evidente que não sou o único em crise. O mundo todo parece hoje atravessar um permanente estado de crise. E no que diz respeito à atividade docente, pelo que tenho visto por aí, não são poucos os que compartilham minhas angústias. Tudo seria, evidentemente, muito mais fácil se eu fosse um daqueles caras (que são legião) que simplesmente estão cagando para tudo. O problema é que não consigo fazer isso. Levo as coisas muito a sério. O tempo todo. De todas as formas. E simplesmente sou incapaz de encarar o trabalho como algo mecânico, como uma obrigação ser cumprida – fazendo sempre o menor esforço possível e evitando a todo custo esquentar a cabeça. Mas é que acho inconcebível fazer algo que não amo. Não dá nem para fingir. Sou o cara que passa finais de semana legendando filmes para mostrar em turmas de graduação, montando sites com conteúdos didáticos, escrevendo apostilas de 50 páginas sobre teoria da imagem. Tenho feito um enorme esforço, também, para não ser apocalíptico. Nunca apreciei os discursos do desastre, os diagnósticos dos futuros sombrios, a retórica do queixume. E além de tudo está totalmente fora de moda ser apocalíptico. A onda agora é ser integrado! Ser moderninho é dizer que estamos vivendo uma “revolução cultural”, onde algumas coisas se vão e outras novas passarão a ocupar o seu lugar. As novas gerações, se diz por aí, já não conseguem operar na lógica de uma cultura letrada, mas estão aprendendo a pensar de forma “não-linear”, “multimediatica”. Isso poderia servir como consolo face à perda de tantas referências amadas (a literatura ou a arte, por exemplo) ou então, como remédio contra qualquer espécie de saudosismo. Mas essa tese já não me satisfaz. Acontece que no passado eu acreditava que o maior problema era o emburrecimento progressivo do mundo. Hoje tenho impressão, porém, de que a coisa é muito mais grave e complexa. Sem dúvida que esse emburrecimento é uma realidade, pelo menos do ponto de vista da tradição humanística. De fato, não se trata apenas de gerações que se sucedem numa disputa pelo troféu da estupidez. Trata-se, antes, de certo desprezo irracional pelo conhecimento. Toda espécie de saber passa a ser vista com desconfiança e confrontada numa atitude de empáfia. Não é preciso ir muito longe: os modelos de sucesso que a mídia nos oferece continuamente – e que são focos do desejo da juventude deslumbrada – nunca precisaram demonstrar qualquer verniz de cultura ou inteligência para prevalecerem na arena social. E como ganhar tubos de dinheiro e aparecer na tevê são os ideais mais elevados desta sociedade, quem poderia culpar as pessoas por idolatrar tais figuras? Como bem mostrou o cinema “adolescente” norte-americano dos anos 80, ser “nerd” é o mais indesejável dos destinos: você não come ninguém e ainda está sempre apanhando dos atletas. Mas, de fato, não se trata apenas disso. Meu diagnóstico hoje é outro. Tenho a impressão de que o maior problema que enfrentamos é menos a elevação estratosférica da ignorância do que uma atitude de suprema indiferença frente ao mundo. A ignorância é facilmente tratável; a apatia exige tratamento longo, difícil e freqüentemente marcado pelo insucesso. Tenho pensado muito sobre isso, especialmente nesta última semana, quando assisti duas vezes ao documentário de Leonard Feinstein sobre o Museu da Tecnologia Jurássica, em Los Angeles. O tema desse filme é precisamente a capacidade de espantar-se com as coisas, a maravilhosa inclinação humana para a curiosidade. Uma capacidade que parece estar cada vez mais ausente da sensibilidade contemporânea. E essa apatia de hoje é tão mais assustadora por ser total e irrestrita. Não parece existir um objeto sequer capaz de despertar o sentido de maravilhamento ou curiosidade. Ah, não curtem ler literatura? Mas então devem gostar de música! Não? Bom, pelo menos algum entusiasmo cinematográfico… Também não? Quem sabe a política ou a economia? Não, não, não… nada. Vazio. Apatia significa falta de paixão (a-pathos). Em outras palavras, talvez os professores desesperançados pudessem resumir o grande mal da cultura contemporânea na falta de amor. Sim, falta amor pelo mundo, falta amor pela vida, falta amor por qualquer coisa que transcenda minimamente o cotidiano e as preocupações mais rasteiras da existência. Nada contra as preocupações rasteiras. Elas devem ser respeitadas. Mas se a vida for apenas isso, não seria melhor enfiar uma bala na cabeça? A visão do senso comum sobre o intelectual o pinta como sujeito sempre com a cabeça nas nuvens, vivendo uma existência de fantasia desvinculada da realidade imediata e concreta que o cerca. Nada poderia ser mais distante da verdade. A realidade mais “imediata” é a mais falsa, a percepção de mundo menos mediada é a mais equivocada. Acordar todos os dias para ir ao trabalho, acompanhar a bolsa de valores religiosamente, passear no shopping em busca do último modelo do tênis da Nike é muito mais absurdo e irreal do que sentar-se num banco de praça e meditar sobre o Imperativo Categórico de Kant. O mundo da apatia é o mais “imediato” de todos, pois nenhuma curiosidade, paixão ou emoção se interpõe entre o apático e a tal da “realidade”. E é também o mundo mais cinza de todos, o mais pobre, o mais esvaziado de sentido. Quem nunca leu Grande Sertão: Veredas tem um pedaço de alma lhe faltando. Quem nunca conheceu os dilemas de Fausto foi roubado de uma das mais importantes experiências da existência. A falta de amor que nos cerca é uma espécie de pequenez da alma. Hoje já não existe espaço para almas grandiosas. “Não coube em mim minha certeza, a regra de ser rei almou meu ser. Minha loucura, outros que a tomem, com tudo o que nela ia. Sem a loucura, que é o homem? Cadáver adiado, besta que procria….” (se não são exatamente esses os versos, é porque os estou recriando; cito de memória – outra arte quase morta nos dias de hoje). O corpo em que não ressoa nenhum acorde espiritual ao ouvir esses versos de Fernando Pessoa está inteiramente morto. É uma casca vazia. Com isso eu não digo que todos os homens devessem ser sensíveis à poesia. Ou mesmo à arte, ou à filosofia, ou a que diabos seja… Digo apenas que as almas se encolheram. Passaram a viver em aposentos sufocantes, sem espaço e sem ousadia para experimentar o que quer que seja realmente novo. É certo que a universidade de hoje tem muito pouco a ver com os ideais que a inspiraram na origem. De espaço para a formação das almas e cultivo do universalismo, elas passaram a ser escolas técnicas de formação profissional. Ou seja, também se encolheram. Ocupam um espaço mínimo e cada vez menos importante na sociedade hiper-tecnológica. Eu costumava imaginar a universidade como um lugar mágico, que iria me curar de uma ignorância da qual eu me envergonhava profundamente. Sim, eu não tinha particularmente nenhum interesse especial pela leitura ou pendor intelectual. Mas sempre fui, admito, bem esquisitinho. Ao contrario das outras crianças, sentia-me medíocre e apequenado por saber tão pouco. Gostava de ouvir coisas como O Aprendiz de Feiticeiro, de Paul Dukas, e logo percebi que havia algo de errado nisso quando meus colegas da escola não pareciam compartilhar do meu entusiasmo sinfônico. Na universidade, não encontrei exatamente o que esperava, mas conheci gente que me alargou os horizontes. Mais tarde, fora do Brasil, aprendi a respeitar o conhecimento. Quando entrava na sala de aula para ouvir meu orientador, pensava no privilégio que era estar ali e poder desfrutar de todo aquele saber destilado ao longo de muitos anos e muitos livros. Lá era inconcebível a porta de uma sala de aula se abrir 10 minutos apos o início das atividades. Lá seria uma falta de respeito sem medida sair antes do término das discussões. Aliás, deixa eu aproveitar para dar um aviso aos navegantes. Como acontece no final de todo semestre, minha paciência já alcançou o limite de suas extremamente distendidas fronteiras. Por essa razão, nem pense em comparecer a uma das últimas aulas do semestre se “tiver” de sair mais cedo. Isso se aplica principalmente à disciplina Comunicação e Imagem. A não ser, naturalmente, que seja aceitável para ti perderes 2 pontos na média final por cada ausência prematura. Preferível nem aparecer, já que não estou enchendo teu saco com a cobrança da presença. Assim, não te pentelho com tecnicalidades nem você me desrespeita com a atitude incivilizada de sair no meio da aula. Considero isso um acordo de cavalheiros.

De resto, não tenho a ilusão de poder transformar ninguém, nem de conseguir alargar um pouco as almas tão estreitinhas que andam por aí. Sim, fui professor homenageado várias vezes, escutei muitos e muitos elogios às minhas aulas e ganhei prêmios no ensino e na pesquisa. Entretanto, não tenho nenhuma fantasia de grandeza em relação ao papel do professor na universidade “pós-moderna”. Acredito em fazer diferença, mas de uma forma extremamente microscópica, localizada e modesta. Porém, o que eu preciso mesmo é ser coerente com o que sou. Ser professor, para mim, não é simplesmente um “trabalho”, é uma vocação. Como extraterrestre que sou, não me resta alternativa senão lutar contra a apatia. Se me entregasse também a ela, movido pelo desânimo que tão freqüentemente se abate sobre tantos de nós, estaria me condenando à morte. Pois viver num mundo sem curiosidade, sem espanto e sem novidade equivale a uma morte em vida. “Quem nada conhece, nada ama”. Esta frase, atribuída àquela estranha figura mística e taumatúrgica (e, quem sabe, “extraterrestre”) que foi Paracelso, resume tudo o que eu quis dizer aqui com tantas palavras. Continuamos escrevendo, continuamos estudando, continuamos ensinando, no fim das contas, não porque esperamos curar o mundo de seus males – sejam eles quais forem. Continuamos fazendo tudo isso na esperança de um dia conseguir curar essa doença da pequenez que acomete o tempo todo as nossas próprias almas.

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Sobre a Comunicação e o Jornalismo

November 23rd, 2009 | Category: universidade

O recente e acalorado debate sobre as Diretrizes do MEC para os cursos de jornalismo é apenas reflexo de um fenômeno muito mais amplo e de longa sobrevida. Refiro-me ao conflito histórico, por vezes velado, por vezes inteiramente explícito, entre duas concepções ideológicas diversas a respeito da Comunicação em suas dimensões de ensino e pesquisa. Como costuma ocorrer, as posições extremas desse conflito revelam-se freqüentemente improdutivas e falseadoras da verdade dos fatos. Particularmente digna de análise é a posição radical que muitos (digo “muitos”, não todos) jornalistas ou pesquisadores do jornalismo costumam adotar na defesa de sua prática profissional ou objeto de pesquisa. Sou graduado em jornalismo e, naturalmente, não tenho nada contra o jornalismo, seja como atividade profissional, seja como tema de investigações científicas. Ao contrario, inclusive, de algumas pessoas com quem já conversei sobre a questão, considero de extrema importância e relevância científica boa parte das pesquisas que aqui têm sido realizadas na área do jornalismo. Também sempre defendi uma posição de pluralismo e abertura no desenho das fronteiras da Comunicação como disciplina e área de conhecimento. Contudo, não cessa de me surpreender a veemência com que certos indivíduos procuram caracterizar o campo do jornalismo como o horizonte de pesquisa mais autêntico e legítimo (senão único) da comunicação. Essa veemência e a forma como ela se expressa parecem indicar uma espécie de síndrome da perseguição. Como se houvesse um complô secreto e difuso contra o jornalismo, torna-se necessário então reagir com máxima força, de modo a criar uma fortaleza inexpugnável capaz de protegê-lo, inclusive, das intempéries do tempo e das transformações sociais. Acho impressionante a facilidade com que a “objetividade” jornalística e o “distanciamento” científico caem por terra diante do poder de certos mitos característicos do mundo do jornalismo. A pureza com que se tem buscado desenhar o horizonte do jornalismo, como prática e objeto de pesquisa, padece de uma ingenuidade que chega a beirar o delírio. Como intelectual universitário, já não tenho nenhuma grande ilusão quanto à minha atividade e ao meu campo de pesquisa. Sei muito bem que não vamos salvar o mundo, e tenho, inclusive, sérias dúvidas sobre a sobrevivência futura do nosso atual modelo de universidade e produção de conhecimento. Contudo, considero essa percepção algo saudável: uma espécie de lucidez necessária não apenas ao trabalho científico, mas à sobrevivência em um mundo de tão rápidas e intensas transformações quanto o nosso. Ainda creio que podemos fazer uma diferença – efetivamente, em um nível microscópico – mas não alimento nenhuma ilusão “missionária” do tipo que por muitos anos grassou (e que me parece ainda muito viva) no âmbito do jornalismo. Em muitos campos do conhecimento, a desaparição de práticas, objetos de pesquisa, teorias ou métodos tem sido encarada com uma atitude que nada tem de reativo – e uso este termo com toda negatividade que lhe devota o vocabulário nietzscheano. O exemplo da Literatura Comparada, nesse sentido, é dos mais esclarecedores. Face ao diagnóstico da decadência da critica literária (ou mesmo da noção clássica de “literatura”), muitos intelectuais acadêmicos saíram em campo para buscar novos objetos, questões ou modos de abordagem. Em vez de se lamentar pela desaparição de seu objeto, inventaram outros horizontes, objetos e perspectivas – alguns, inclusive, se aproximando daquilo que nós, de modo algo artificial, denominamos por aqui de “comunicação”. Lembro-me bem de meu professor de hebraico, que costumava dizer: “eu não acredito em D’s, eu sei que Ele existe”. Era sua maneira de manifestar a intensidade inquestionável de sua fé. Assim fazendo, naturalmente, confundia crença com saber, fé com ciência. Mas não sejamos apressados em condená-lo. A bem da verdade, nunca existiram fronteiras precisas entre esses domínios. Assim como não existe algo como um “puro” jornalismo, não existe algo como a “pura” ciência, totalmente incontaminada pelo imaginário ou pela crença. Como diria Bruno Latour, “jamais fomos modernos”. O que é perigoso na frase é seu teor dogmático. Enquanto a atitude científica prima pela abertura à permanente revisão de seus conceitos e teses, a atitude dogmática almeja paralisar o tempo e essencializar realidades históricas. São precisamente inflexões desse tipo de atitude que se pode identificar tanto no documento das diretrizes do MEC quanto no discurso de alguns dos defensores mais ferrenhos do jornalismo como campo de conhecimento e atividade humana. Vejamos, por exemplo, uma passagem do documento que já foi destacada (e criticada) na lista da Compós:

“Com a finalidade de tornar compatíveis o requisito da titulação do corpo docente e a necessidade de aderência às disciplinas ministradas, a Comissão de Especialistas recomenda a criação de um Programa Nacional de Aperfeiçoamento Docente destinado às novas gerações de professores de Jornalismo. Muitos foram titulados pelos cursos de pós-graduação da área teórica de Comunicação ou de disciplinas conexas, sem ter exercido plenamente a profissão e não raro sem o domínio cognitivo da sua especificidade. Concomitantemente, deve ser fomentada, nas Escolas de Comunicação, a abertura de cursos de mestrado e doutorado com áreas de concentração em Jornalismo, para atender à demanda crescente de novos professores para os cursos de graduação e de projetos de pesquisa científica na área”

Em essência, o que se propõe aqui é a abertura de uma “reserva de mercado” acadêmico para o jornalismo. Como se já não bastasse o fato de vários programas de pós-graduação possuírem linhas de pesquisa e pesquisadores dedicados a temas de jornalismo, agora é necessário fomentar mestrados e doutorados especificamente dedicados a tal área de concentração. Mas então por que não fomentar a criação de cursos com área de concentração em Cibercultura, de modo a melhor preparar os futuros pesquisadores desse campo? (claro que o exemplo é, na verdade, um contra-exemplo). No fundo dessa proposição, esconde-se também uma contradição lógica. Por “domínio cognitivo”, o que se quer destacar efetivamente é a necessidade da prática. Ou seja, o retorno do velho argumento de que jornalismo se aprende fazendo. Contudo, sugere-se que a melhor maneira de realizar isso é dotando os professores de uma formação teórica em jornalismo nos cursos de mestrado e doutorado! Na verdade, a questão da pesquisa e da teoria aqui é secundária. O que importa é que os ingressantes nos mestrados e doutorados em jornalismo tenham exercido a profissão de jornalistas. Toda a lógica desses discursos aponta para uma mentalidade tipicamente corporativista, ou, melhor ainda, característica das Guildas medievais. Alem disso, tal lógica é perpassada por uma concepção de jornalismo que – sinto muito! – já não pode sustentar-se no cenário contemporâneo. As próprias noções tipicamente modernas que fundamentavam a concepção clássica do jornalismo deixaram de fazer sentido. Por mais que aqui nas terras tropicais tenhamos esse ardoroso desejo de recortar campos, de fechar domínios, de constituir reservas e de dar nomes precisos às coisas, não há como retornar aos tempos da pureza – se é que algum dia eles realmente existiram. Num sentido irônico e paródico (naturalmente), eu posso parafrasear as palavras de meu professor e dizer: “eu não creio que o jornalismo em sua configuração moderna acabou, eu sei que ele acabou!”. O fim da exigência do diploma de jornalismo, ainda que motivado por interesses mesquinhos de ordem política ou econômica, constitui apenas um dos muitos indícios das transformações que estão em curso. Sempre existirão, é claro, os saudosistas dos bons tempos de antanho, cujo exemplo emblemático encontro na obra recente de Andrew Keen, “The Cult of the Amateur”. Eu os lerei com atenção e refletirei sobre seus queixumes, possivelmente compartilhando da saudade pela perda de determinadas referências amadas e familiares. Mas com um sentido de realidade forte o bastante para perceber que idéias como a da cultura participativa e da reconfiguração dos suportes midiáticos configuram marcas fundamentais do nosso presente. É possível – e provável – que daqui a 20 anos estejamos falando de outras idéias e coisas. “O tempo é uma criança que joga o jogo de pedras…”, disse Heráclito com excelente poesia. Quem não se senta para jogar com ele corre o risco de sofrer de uma forma patológica de saudosismo. Por enquanto, a impressão que tenho é que a comunicação e o jornalismo continuarão a ter suas fronteiras esgarçadas e suas práticas e teorias transformadas em uma velocidade vertiginosa. Se nas faculdades de comunicação, uma outra expressão do pensamento reducionista configurou-se na surrada oposição entre teoria e prática, hoje, mais que nunca, a boa teoria (que é sempre também uma prática, como lembrava Deleuze) se faz necessária ao cidadão da tecnocultura contemporânea. Acaba de me vir à memória uma palestra a que assisti, faz muitos anos, na UERJ: um conhecido representante dos estudos de jornalismo desfiava, numa retórica viciada, argumentos primários e equivocados para questionar o papel das disciplinas teóricas no curso de comunicação. Em seu discurso, a prática (jornalística) se manifestava como a heroína que viria salvar o mundo da inanidade teórica. Ao final da palestra, perguntei: “mas toda a sua estrutura argumentativa não foi elaborada com base em referenciais teóricos? Se o despirmos de toda essa armadura conceitual, só resta o silêncio. Talvez essa seja a resposta mais adequada da prática à teoria”. A tensão entre teoria e prática também constituiu, em muitos sentidos, uma força fundante dessa outra tensão entre a comunicação e o jornalismo. Trata-se, evidentemente, de uma falsa oposição, pois nem a prática nem a teoria existem em forma pura. No fim das contas, a questão não é confrontar práticas e teorias, mas saber dizer a diferença entre as boas e más práticas e teorias.

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Crise IX (diagnósticos)

August 06th, 2009 | Category: universidade

“Pero la universidad chilena más interesada en su rentabilidad performativa como institución del conocimiento, paradojalmente, exhibe una contradicción estructual: es moderna en su afán de lucro y tradicional en su celo disciplinario. Los estudios culturales investidos de todo tipo de ilusiones y fraudes no han tenido lugar en la academia chilena, ocupada en multiplicar los logros de la modernización y entregar el saber a la nueva burocracia global de los asesores financieros, los estrategas corporativos o los inventores de nichos informáticos. Sin duda, la situación es más compleja de lo indicado, pero la formalización universitaria tiende a consagrar la hegemonía de lo útil, en su versión más transparente, el mercado. La universidad nacional, mito desarrollista por excelencia, se hunde en el desfinanciamiento progresivo y el desprestigio cultural, y sólo puede recurrir a viejos símbolos de autoridad académica signados por una defensa extrema y ciega de lo disciplinar” (Carlos Ossa, Saberes académicos y modernización, p. 15). Penso que todo o argumento de Ossa - ainda que com pequenas diferenças - é igualmente aplicável ao ambiente universitário brasileiro. Aqui, pelo menos na grande área das Ciências Humanas, enfrentamos um violento complexo de inferioridade que nos leva, muito facilmente, a engolir e adotar o discurso produtivista. Não haveria nada de essencialmente errado nesse discurso se ele se contentasse em exigir dos pesquisadores seriedade, trabalho e competitividade. O problema é que ele peca ao importar de outras áreas e contextos geográfico-culturais os seus parâmetros. Uma pesquisa que não seja “util” segundo crtérios oriundos das ciências duras está condenada ao inferno da academia. Mesclamos aqui esse complexo de inferioridade cultural a um delírio que nos leva a buscar padrões de excelência irreais e equivocados. Imitamos o que há de pior lá fora e somos diferentes no que há de melhor. Por exemplo, não consegui enxergar em meus anos de vida acadêmica nos EUA ou em minhas curtas incursões européias nada parecido à paranóia disciplinar que nos impele por aqui, de forma especial no campo da comunicação. E não há livro, tese ou estratégia retórica que me convença de que alguém, nestas terras tropicais, saiba onde termina e começa a frondosa “comunicação”. Por que, então, não nos envergonhamos aqui de montar bibliografias modelares a partir de autores que lá fora pertencem a departamentos de Literatura Comparada ou Filosofia? A bem da verdade, essas distinções ou não existem ou são insignificantes fora do Brasil. Pensadores como Jonathan Crary, por exemplo, costumam atuar em vários departamentos de uma mesma instituição, sem qualquer espécie de crise de identidade. Por aqui também temos o costume de estabelecer certas agendas de pesquisa, determinando o que é ou não importante (ou útil e estratégico). Contudo, facilmente se esquece da dimensão ideológica dessas agendas. É certo que todos nós estamos sujeitos a determinantes ideológicos, a pontos cegos de várias naturezas, mas é típico do “pensamento institucional” (como o da Capes) não enxergar seus próprios vetores ideológicos, ou melhor, simplesmente negá-los. Na verdade, o ideal desenvolvimentista e progressista tem ainda imensa força na terra Brasilis. Essa visão é todavia cega a qualquer idéia de progresso de matriz espiritualista. Só existe progresso e bem estar numa dimensão material. Há alguns anos atrás se ouvia freqüentemente a crítica ao teor “ensaístico” de boa parte da produção em comunicação no país. Cansado de ler a bibliografia estrangeira sobre cibercultura (uma palavra que em breve pretendo abandonar por completo), sou forçado a me render à evidência de que pelo menos 80 por cento dela é precisamente de natureza ensaística. E não dá para enxergar nada de ruim nisso. Acho que o problema é, isso sim, a qualidade do ensaio, não suas estruturas discursivas intrínsecas. Precisamos de pesquisa “aplicada”? Sim, naturalmente que precisamos. E cada vez mais. Mas devemos abdicar do ensaio e da pesquisa de reflexão ou matriz filosófica? Não, definitivamente não. Isso seria, realmente, declarar o último estertor da academia por aqui. Precisamos justificar nossas atividades segundo parâmetros adequados a cada área? Não, isso seria ir na contramão do que se passa no resto do globo. É certo que essa separação disciplinar tem razões ideológicas, políticas e econômicas. E gera um competitivismo da pior natureza, que nada tem de saudável, além de produzir nas mentes dos jovens pesquisadores uma forma de pensar tacanha, limitada e, em última instância, mortal ao verdadeiro pensamento. Diante desse cenário, o que fazer? Chegaremos lá…

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Crise VIII (Renovações)

July 23rd, 2009 | Category: universidade

Acabei de ler a introdução da belíssima tese de doutorado de Eduardo Guerreiro Brito Losso, “Teologia Negativa e Theodor Adorno: a Secularização da Mistica na Arte Moderna”. Faz tempos que não encontrava uma tese ou dissertação tão invigorante e madura. Extremamente bem escrita (a julgar pela introdução) e seriamente pesquisada, a tese constitui uma contribuição da maior importância ao campo dos estudos (quase inexistentes) sobre Adorno no Brasil. Mais que isso, sua reflexão vai ao encontro da crise que tenho vivido com a academia, e, portanto, essa leitura promete algumas indicações valiosas para mim e para os que estão insatisfeitos com as formas de saber e poder dominantes no ambiente universitário. Conheci o autor esta semana, de forma muito rápida, na UERJ. Eduardo me escrevera um email dizendo que havia lido meu livro “Silêncio de Deus, Silêncio dos Homens” e adorado o trabalho. Queria me conhecer e pedia um autógrafo. Eu lhe disse que se tratava de um trabalho cheio de imperfeições, mas do qual eu tinha grande orgulho por ser produto de uma paixão autêntica (algo que a academia pode nos roubar ao longo dos muitos anos de burocracia e obrigações institucionais). Felizmente, ele havia trazido consigo uma cópia da tese, que foi escrita em boa parte nos três anos passados em Leipzig, com bolsa do DAAD, sob a orientação de Christoph Türcke. Ontem à noite comecei a ler o trabalho e encontrei um texto de grande beleza e fluidez, alimentado por uma densidade filosófica incomum e por um legítimo amor pelo conhecimento e pela verdadeira missão da universidade. Permitam-me reproduzir um momento primoroso desse texto: “Podemos levantar a hipótese de que a teologia foi verdadeiramente sacrificada. Houve, no nascimento das ciências humanas, precedido pela emergência da metafísica moderna na filosofia e culminando na crítica à metafísica e à religião, um verdadeiro parricídio da teologia. Esse pai todo poderoso, rei da universidade, senhor da infância do saber moderno (…), foi decapitado, despedaçado, jogado para bem longe (…) Mas Adorno, antecedido por Kracauer, Benjamin e Bloch, e sob o impacto da chamada teologia dialética (Barth, Tillich, Otto), criticando-a, mesmo participando em geral desse silêncio, carregou os restos daquele assassinato consigo, alimentou-se, quase que secretamente, desse corpo esquartejado e inquiriu-se sobre seu papel naquele momento”. Continuo a leitura com expectativa e ansiedade. As doutrinas esotéricas ensinam um modo de existência que, por vezes, têm uma dimensão quase-estética. Se, como elas pregam, não existe o acaso, mas habitamos um cosmos pleno de sentido e de conexões ocultas, então este encontro adquire efetivamente um significado especial. Ele acontece em um momento no qual minha extensa revisão de valores exige a doação de um sentido “espiritual” (ainda que não religioso) ao fazer acadêmico. E o surpreendente trabalho de Eduardo já me ofereceu um novo alento nessa caminhada.

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Vampyroteuthis

July 18th, 2009 | Category: universidade

É. Resolvi disponibilizar aqui, em formato PDF, o trabalho inédito apresentado no Colóquio sobre cinema e percepção. Talvez ele marque o término de um período, talvez ele seja o testamento de um passado que dará lugar a outras coisas. Portanto, aqui está ele, em estado bruto e com todas as imperfeições com que nasceu. Mas me deu prazer escrevê-lo. A senha para acessar o texto é 1234.

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Crise III

July 10th, 2009 | Category: universidade

Tomando coragem para corrigir mais 40 provas…acabo de ler, na forma de uma estranha conjunção astrológica, um péssimo trabalho acadêmico e a introdução do livro “The Borderlands of Science”, de Michael Schermer (comprado no sebo do Gama por R$ 10,00). Ambas essas leituras, diferentes como possam ser, apontam para a relação entre ciência e superstição, entre sabedoria e ignorância, entre pensamento reto e torto. Dando continuidade à minha crise, tenho de perguntar, então: para que ler tantos livros, ensinar e escrever quando a ignorância, em suas mais variadas formas e manifestações, é tão e cada vez mais dominante em nossa cultura? Os livros que lemos, os textos que escrevemos adquirem aspecto completamente irreal quando confrontados com tamanha estupidez. E a estupidez tem poder. Digo isso levando em consideração minha própria ignorância, que é vastíssima. Não que eu acredite piamente na noção de “função social”. Na verdade, eu realmente acho que algumas das coisas mais importantes que fazemos na vida (senão todas) são virtualmente inúteis. Não fazer nada, por exemplo, é algo extremamente importante para a saúde da mente. Mas por que institucionalizar as práticas do saber na universidade quando vemos que a maioria esmagadora dos que nos cercam neste mundo vivem e viverão numa espécie de êxtase da estupidez, navegando pelo dia-a-dia perfeitamente bem sem conhecer uma linha de Guimarães Rosa ou a Teoria do Big Bang (”ignorance is bliss”, diz Cypher em Matrix)? É uma pergunta válida, e os defensores da eliminação de disciplinas teóricas em cursos de comunicação poderão refastelar-se nela. Sim, eu mesmo me pergunto isso. Que diferença fará para esse sujeito, que não quer mais que fazer três refeições ao dia, viver num apartamento simpático e pagar suas contas, aprender sobre a Escola de Palo Alto? Por outro lado, mesmo na dimensão mais imediatamente pragmática do sucesso profissional, é preciso reconhecer que conhecimento e cultura revertem-se frequentemente na conquista das melhores posições (há exceções, naturalmente, e temos montes de verdadeiras antas trabalhando na televisão). Enfim, é uma questão complicada. Mas isso não diminui minhas dúvidas e crises de identidade: sou pago para estudar também? Que tipo de livros eu devo ler? Que tipo de pesquisa devo fazer? Para quem exatamente estou trabalhando? E qual é o resultado do meu trabalho? Trata-se de um momento de reinvenção, provocado, inclusive e principalmente, por inicidentes sombrios que vivi nesses últimos dias. O que virá depois disso eu ainda não sei, mas com certeza será melhor.

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Crise II

July 08th, 2009 | Category: universidade

Minha crise com a academia se agravou esta semana, pois vi como eu mesmo, humano e mortal, estou sujeito aos efeitos nefastos que muitas vezes essa vida produz na gente.  Mas é preciso aprender e seguir em frente.  Não há idade para deixar de aprender, não há momento em que se sabe tudo.  Somos todos crianças, tateando na escuridão e tentando fazer sentido de um mundo caótico e bagunçado.  A vida acadêmica deixa isso muito claro. Este é um momento de cansaço e de reflexão.  Talvez algo bom nasça daí e a vida possa vir a fazer um pouco mais de sentido, mesmo nesse estranhíssimo mundo da academia.

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Academia

July 03rd, 2009 | Category: universidade

Não, não é a academia de ginástica. Fiquei com vontade de discutir alguns aspectos curiosos da vida acadêmica, e acho que isso pode ser terapêutico. Nos últimos dias, tenho vivido esporádicos momentos de crise com as singularidades do sistema acadêmico aqui na tropicália. Todas as vezes que acontece algum grande evento (e falando nisso, o Colóquio “Cinema, Tecnologia e Percepção” foi um sucesso absoluto) eu me ponho a observar e perceber a repetição de certas peculiaridades da academia por aqui. Em primeiro lugar, fico pasmo ao ver como é fácil iludir as pessoas. Basta o sujeito acumular algum capital simbólico, estabelecer um nome, firmar uma “marca” para que seja continuamente incensado. Não importa que não haja nada de novo, original ou efetivamente profundo no que faz. E mesmo que haja, a maioria das pessoas está ali apenas para ver a figura, para saborear algo desse patético fenômeno que é o “stardom” acadêmico (o estrelismo na universidade é um fato deprimente, pois todo intelectual, por mais “célebre” que seja, é conhecido por apenas meia dúzia de gatos pingados). O que importa realmente é essa “marca”. A academia é um domínio inteiramente assujeitado aos ditames da moda. É um culto da imagem precisamente no espaço social onde os discursos se dedicam, na maior parte das vezes, a criticar a veneração das imagens na cultura midiática. Relacionada a essa primeira peculiaridade está a segunda, que é a mecânica das citações fáceis dos autores que estão “na moda”. Todas as vezes que alguém cita um desses nomes (e geralmente numa situação em que a referência é mais decorativa do que essencial à economia epistemológica do trabalho) eu sorrio ironicamente para um amigo que também se diverte com tal espetáculo. Temos essa aposta secreta: ficamos esperando para ver quando alguém vai citar o X ou o Y (antes era o Z) e tentamos adivinhar quantas vezes os nomes vão aparecer. Obviamente não há nada de errado em citar autores (é o que fazemos a maior parte do tempo), inclusive os indefectíveis X e Y. O que é divertido é que são sempre os mesmos autores, e em frases de efeito que, a bem da verdade, não dizem muita coisa de concreto. Nós poderíamos até dizer que temos uma lista do “In” e “Out” do mundo acadêmico: hoje, o Aganbem é definitivamente “In”, mas o McLuhan está (quase que totalmente) “Out”. Eu sempre sofri, contudo, de uma estranha patologia, que é gostar do que é mais obscuro, esquisito e impopular. Desse modo, eu me delicio citando Max Picard, Fritz Mauthner ou Manuel de Landa (que por aqui são figuras alienígenas). Ou então sendo apocalíptico quando todo o mundo é integrado (e vice-versa). Adoro ser do contra. Eu sei, sou um chato mesmo. Mas eu também tenho minhas qualidades. Desde cedo eu decidi que não iria me render a nenhuma espécie de “estrelismo” histérico que viceja na academia por aqui. Eu sempre evitei, por exemplo, fazer aquele deploravel papel do cara que faz sua palestra e depois vai embora, sem assistir ao trabalho de mais ninguém, por que, afinal, tal e tal congresso (bem como o mundo) só existem para mim. Claro que ninguém tem disposição para acompanhar as atuais maratonas acadêmicas o tempo todo. Mas sempre me esforcei para tentar prestigiar meus colegas na medida do possível, e só costumo me ausentar quanto o cansaço realmente me vence. Outra fonte de contínuo entretenimento é a figura do jovem pesquisador cuja pretensão não cabe na sua pouca idade. É, eu também era assim, confesso. Até o dia em que levei umas saudáveis pancadas verbais de um colega que me serviram para abrir olhos à minha gigantesca ignorância. Eu nunca esqueci isso. Acho saudável a gente ter um choque de realidade de vez em quando. Comigo isso funcionou, mas não acho que eu tenha esse mesmo denodo que meu amigo. Eu vejo o cara mal terminando o doutorado usar frases como “em toda a obra de Nietzsche…” e apenas fico quieto, esperando que alguma outra alma caridosa venha salvar esse(a) jovem - que na maioria das vezes é efetivamente talentoso(a) - do inferno da academia. O inferno da academia (”deixai toda esperança, vós que aqui entrais”) é um lugar muito cruel, pois parece com aquele Paraíso muçulmano onde as mil virgens ficam o tempo todo te servindo cachos de uva e dizendo como você é gostoso. Entretanto, num dia de extremo desgosto, o sujeito finalmente acorda e vê onde ele realmente está: no limbo dantesco (bom, alguns nunca acordam mesmo). O jovem pesquisador pretensioso é uma espécie de estrela acadêmica em miniatura: ele cita os mesmos autores, ele repete os mesmos chavões, só que com menos elegância e poder de ilusionismo. Eles são produzidos em série, formatados para manter fidelidade cega a seus mestres da palavra. Seus mandamentos são os seguintes: citar (pelo menos duas vezes) os autores da “moda” a partir dos quais seu orientador também foi formatado (se você for da institução X é o Deleuze; se for da Y é o Crary e assim por diante…); escrever um texto “poético” com um bom punhado de frases de efeito e alguns jogos de palavras (com uma dose de literatura e alguns escritores aqui e acolá); procurar, sempre que possível, ser “espiritouso” e “sedutor”; nunca verificar os olhares da platéia de modo a perceber se estão entediados ou efetivamente prestando atenção ao que ele diz - o que importa mesmo é a sua performance; escolher os objetos e temas sancionados pelas correntes majoritárias. Nesses dias, eu percebi, inclusive, que minha ressitência a trabalhar com o comum, com o que é “padrão” não tem mérito algum. Trata-se simplesmente de uma paixão barroca. Sou um patológico colecionador de curiosidades. E não tenho a mínima pretensão de achar que minhas coleções tenham alguma utilidade para outra alma além da minha. Mas mesmo assim, nunca deixei de abominar o hermetismo acadêmico. Falo para ser entendido. Meus alunos me entendem (a maior parte do tempo), mesmo quando escolho temas obscuros ou autores exóticos e complexos. É que eu gosto de clareza, e acredito que poesia, cientificidade e objetividade podem andar de mãos dadas. Eu sei que minhas esquisitices devem ser fonte de deboche para muitos, mas o que me salva é que eu mesmo já debocho delas. Aprendi com um querido amigo que “tudo que fazemos é contar estórias”. Essa é sina (e a grandeza, pois não existe nada mais importante que contar estórias) das Ciências Humanas. Eu rio da minha condição patética de intelectual terceiro-mundista e me comprazo nas minhas manias. O cara que não tem senso de humor e que se leva demasiado a sério é um terrorista em potencial, um perigo para a sociedade. Em relação às jovens estrelinhas da academia, eu poderia repetir alguns dos deliciosos (e disfarçados) sarcasmos de Umberto Eco (outro que está “Out” desde meados dos anos 80): “É certo que não se pode excluir que o candidato [de uma tese ou dissertação] seja um gênio que, com apenas 22 anos tenha compreendido tudo, e é evidente que estou admitindo essa hipótese sem qualquer sombra de ironia. Sabe-se que quando um gênio desses surge na face da terra a humanidade não toma consciência dele de uma hora para a outra; sua obra é lida e digerida durante alguns anos antes que se descubra a sua grandeza. Como pretender que uma banca ocupada em examinar não uma, mas inúmeras teses, se aperceba imediatamente da magnitude desse corredor solitário? ” E para finalizar, voltando aos “estrelões”, aos papas da academia, é evidente que existem lindas e honrosas exceções, gente simples, humilde e silenciosa. Gente cuja grandeza se reflete em seu parcimonioso uso do pronome “eu”. As maiores potências intelectuais que conheci - em minha área e em outras - são assim, pois não sofrem da insegurança que leva alguns a se afirmarem continuamente. Mas não é blague quando digo que ja ouvi de certas eminências frases do gênero “sabe com quem está falando?” ou “eu sou o X”. Em geral são figuras tristes, de depauperada densidade intelectual, mas grande habilidade retórica. Ao mesmo tempo, tenho consciência de que meus conceitos a respeito do que é densidade intelectual não são necessariamente os da maioria das pessoas. Eu admiro os sujeitos que falam de várias coisas, que fazem agenciamentos inesperados, que saltam de um campo e de um objeto para o outro, que se esquivam dos temas fáceis e populares. Sem dúvida, não é isso que a Capes quer que façamos. Afinal, ela consiste, fundamentalmente, num sistema de estrangulamento do pensamento - cujo mecanismo essencial é da ordem da tecnicidade e da performance. Ela valoriza a especialização sobre a generalização, a pesquisa empírica sobre a teórica, o quantitativo sobre o qualitativo. Como qualquer boa expressão da Razão, ela é “poder, e o poder não pode querer que nada lhe escape” (disse belamente Victor Gomez Pín em seu belo Drama de la Ciudad Ideal: el nacimiento de Hegel en Platón). Por mais que seu sistema possua certa lógica, por mais que a compartimentalização do conhecimento possa ter suas justificativas, ela nunca vai conseguir me convencer de que cem investigações empíricas tenham mais valor que um único ensaio de Walter Benjamin (esse está mais ou menos “In”). Sim, eu também produzo para a Capes, eu também me situo dentro do sistema, mas paralelamente à produção do “lado A” eu cultivo a do “lado B” (como diria minha querida amiga Simone de Sá). Em vez de me opor ao sistema marginalizando-me e abdicando inteiramente das “regras”, eu prefiro corroe-lo por dentro. Minha fantasia é a de que o mundo só funciona a partir de ficções que nós mesmos elaboramos, a da Capes é que existe uma ordem e uma objetividade exteriores à política, ao imaginário e à subjetividade (mas como são claramente subjetivas as suas avaliações!). Digo “a Capes” de forma impessoal, como se se tratasse de uma máquina. Mas, afinal, somos nós que fazemos essa máquina (ainda que, uma vez constituída, ela conquiste certa dose de vida própria), e eu tenho culpa no cartório como todo mundo. A ” Capes” e o “pensamento” pertencem a duas ordens de existência inconciliáveis, assim como a poesia e o tecnicismo. O estrelismo acadêmico, o império do eu, os delírios de grandeza que por vezes assolam nossa cena acadêmica têm muito a ver com a formatação de mundo desenhada pela Capes. Ela forma um campo de disputa de capital simbólico (e econômico); capital que, no mais das vezes, não tem relação alguma com a erudição ou com a densidade do pensamento. Mas essas, de qualquer modo, são noções inteiramente fora de moda. A essa altura, vocês poderiam me perguntar: se tenho tantas crises, tantas reclamações, tanto desgosto com o cenário que esbocei, por que continuo insistindo na vida acadêmica? Posso oferecer três respostas: em primeiro lugar porque não sei fazer nenhuma outra coisa e já passei da idade de mudar de profissão; em segundo lugar, porque me diverte imensamente. E em terceiro lugar, porque, com todas as mazelas, ainda se trata de uma vida digna de ser vivida quando se faz acompanhar pela paixão. Escrever, ensinar e aprender só fazem sentido como atos de paixão. Diz o Zielinski: “a pesquisa acadêmica desprovida de paixão pertence ao Hades da academia”. É isso que salva tudo, é isso que justifica tudo: o amor pelo pensamento, o amor por essas coisas inúteis que são a arte, a filosofia e o saber. E todo o resto é literatura, como disse Verlaine com boa literatura.

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June 09th, 2009 | Category: universidade

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